sábado, 15 de junho de 2013

O Brasil acordou!


por Diney Lenon de Paulo

Atenção manifestantes, ou "vândalos", como diz a grande mídia.

A manifestação nacional convocada pelo MPL para o dia 17 toma outras proporções diante do crescimento da violência dos militares contra o povo em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e outras cidades.

A questão maior agora não são os "centavos" dos aumentos. Vinte centavos não é o grande problema do povo brasileiro. Mas diante das condições de vida da população, das ações do governo a favor de empresários, banqueiros, contra a vontade do povo (ex: Copa do Mundo, ao invés de saúde, educação e trabalho) explodiram nas capitais brasileiras manifestos cívicos protagonizados por uma juventude nova, a juventude conectada na internet que sabe buscar informações alternativas às grandes mídias.

A violência desproporcional dos militares de São Paulo contra civis desarmados, as prisões arbitrárias e a manutenção de manifestantes presos, ou "presos políticos" é uma clara demonstração da situação do país: Vivemos o crescimento da democracia e, mais uma vez a história se repete, o pavor da elite governante contra "povo na rua" gera reações violentas. Vejamos o exemplo dos anos 1960, quando o povo ocupava as ruas e havia um governo mais progressista, logo veio o Golpe de 1964.

Determinações judiciais proibindo manifestações durante jogos da "Copa das Confederações" são também exemplos de que nosso "Poder Judiciário" é "anti-povo”, ou seja, classista, do lado da elite empresarial, dos banqueiros e dos latifundiários. Vejamos que a "Justiça" no Brasil está expulsando índios de suas terras (MS) para manter o domínio de fazendeiros grileiros, bandidos, assassinos. A "Justiça" no Brasil determina fiança de R$ 20.000 para manifestante e ainda quer credibilidade? A "Justiça" no Brasil multa sindicatos que fazem greve enquanto Carlinhos Cachoeira e Paulo Maluf (Ex-Governador de São Paulo procurado pela Interpol) vivem tranquilamente.

O que estamos vivendo, com a mais absoluta certeza de um militante, mas de um Cientista Social, é o crescimento da consciência popular no Brasil. Parece que nos cansamos de ver franceses na rua, italianos, gregos, espanhóis lutando por seus direitos e dizer:"brasileiro não faz nada". Os brasileiros são "filhos que não fogem à luta", basta ver nossa história de forma mais apurada (Palmares, Confederação dos Tamoios, Revolta dos Malés, Movimento Abolicionista, greves e ocupações de terras, como exemplo apenas) . Com o "fim" da Ditadura Militar há mais de 20 anos, essa nova geração está tendo a oportunidade de aprender (re-aprender) a fazer política da boa, na rua, enfrentando a injustiça que o "Estado" brasileiro não desfaz porque não é um "Estado do povo", é um Estado da burguesia. A Juventude está dando exemplo e com certeza esse grande movimento estará nos livros de história futuros (E eu é que não quero ficar de fora disso! Rsrs)

Poder judiciário, governos do PSDB, DEM e a grande mídia representam o que há de mais retrógrado no país e são comandados por grupos econômicos (empresários, multinacionais, banqueiros, fazendeitos) e indivíduos que não amam seu povo brasileiro, não sofrem coma dor do seu povo, pelo contrário, são uma elite nojenta que ama “fazer compra em Miami, levar os filhinhos para Disney”. Vejamos em São Paulo: estudantes clamando: "Sem violência" e qual a ação dos militares comandados por Alckimin (PSDB)? Porrada! E a mídia? Chama o povo de “vândalos” (apesar de ter havido uma pequena mudança depois que seus repórteres foram atacados, tamanha a violência dos militares contra tudo e contra todos que estavam nas ruas).

Em ditaduras, manifestações são proibidas e há "toques de recolher", quando o governo proíbe que grupos de pessoas fiquem na rua. É isso que está acontecendo. Com medo de perderem o controle sobre o "pacato povo brasileiro", a reação violenta deve ser "exemplar" para coibir que outros se aventurem a lutar por seus direitos. O que querem é que fiquemos atentos à Copa, às novelas, ou seja, querem que permaneçamos alienados diante da exploração cotidiana.

Nesse sentido, a luta no Brasil hoje, graças à burrice do governo paulista e da truculência dos militares ultrapassa a questão do aumento das passagens, mas é uma luta pela democracia verdadeira, pelo direito do povo ocupar as ruas e se manifestar, mas acima de tudo, ser ouvido!
Quando ouço aquela historinha de "deitado eternamente em berço esplêndido", me sinto incomodado, pois como diz Renato Russo, nosso passado (de acordo com a história oficial da elite) é um "passado de absurdos gloriosos". Na verdade, um filho dessa Pátria não foge à luta e é por isso que o povo deve ocupar as ruas e praticar a desobediência civil, ao melhor estilo de Ghandi, Luther King, Mandela, personagens que entraram para a história por desafiarem leis injustas e sonharem e viverem o sonho de outro mundo.

A juventude não é o futuro do Brasil, ela é o presente!

Avante, povo brasileiro! Nenhum passo atrás!

Venceremos!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Mujica na Rio + 20


Pepe Mujica, o mundialmente conhecido Presidente de nossa querida pátria irmã, a Rpública Orietnal del Uruguay, é um dos grandes líderes latinoamericanos que compõe a via alternativa de desenvolvimento ao neoliberalismo. 

Ex-guerrilheiro dos Tupamaros, movimento que faia frente à Ditadura, que durou 18 anos, 14, dos quais passou na prisão.Militante de esquerda, quando deixou a cadeia com o fim da ditadura voltou a vida política institucional e se tornou Presidente em 2009 e desde então tem aprovado mudanças importantes para os uruguaios.

É mundialmente como o "presidente mais pobre do mundo", título que não aceita, pois não reduz riqueza a bens materiais, pelo contrário. Recebe cerca de 25 mil reais e doa 90% para instituições sociais, além de ter aberto mão de residir no Palácio presidencial para continuar morando em seu sítio, onde planta flores.
A sabedoria desse grande homem, que viveu experiências profundas e significativas o faz constar entre as maiores lideranças mundiais que se unem contra o imperialismo. 

Segue abaixo o vídeo do Presidente Mujica no encontro mundial da RIO + 20

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Resistência Negra. Entre armas, batuques e folguedos populares


por Diney Lenon de Paulo


Força que se opõe a outra

A opção pelo estudo da resistência negra através de suas lutas ocupa muitas vezes o centro das pesquisas sobre a resistência escrava e negra diante da dominação hegemônica branca.
A importância da leitura sobre a resistência cultural e de afirmação identitária possui enorme relevância para o entendimento sobre a dimensão da luta pela emancipação política, econômica e cultural dessa população que, ainda nos dias atuais, procura um espaço de igualdade, sem preconceito e de respeito à diversidade.
Resistência é um termo que, segundo Ferreira (2000, p. 601) possui o significado de “força que se opõe a outra”. Nesse sentido, falar da resistência da população negra, ex-escrava e afrodescente nos dias atuais é também refazer um caminho reflexivo sobre suas lutas, revoltas e movimentos políticos, a exemplo da luta de Palmares, da Revolta dos Alfaiates, da Revolta dos Malés. Assim, retomar a questão da resistência negra é, sobretudo, perceber que no emaranhado das lutas de resistência há um complexo cultural contra-hegemônico, de identidades complexas resistentes à escravidão, dominação política, física, mas também à dominação cultural.
O presente artigo tem por objetivo refletir essencialmente sobre os aspectos da resistência cultural negra. Valendo-se também de exemplos históricos da resistência, ou das lutas de emancipação escrava ora citados, deverá discorrer sobre a resistência cultural negra através de suas manifestações culturais, em especial, a Congada.
As manifestações culturais que ora são objeto de análise, o são porque possuem significado importante na constituição das identidades resistentes. Segundo Celso Prudente (2010, p. 48), na busca “das características dos impérios africanos, os negros demonstravam também um passado de profunda organização política, próprio de uma história também marcada por poder e conquista”.


História e cultura resistente

Na segunda metade do século XVII, Palmares, situado na atual região da Serra da Barriga, estado do Sergipe, constituiu um espaço de socialização e resistência à escravidão. Com modelo próprio para sua produção econômica e de organização familiar alternativo ao padrão cristão hegemônico, era composto o grande Quilombo de negros, índios e brancos marginalizados que não compunham a sociedade tradicional escravocrata.
Esse espaço, onde a produção econômica era distribuída de forma comunitária, representava, segundo Clóvis Moura (1998, p. 170), a “própria antítese da apropriação monopolista dos senhores de engenho e da indigência total dos escravos produtores”.  Nesse sentido é possível afirmar que desde os primeiros movimentos de resistência negra à escravidão elementos culturais contra-hegemônicos se faziam presentes nas lutas e movimentos políticos de resistência.
Com forte influência da Revolução Francesa, consagrada em 1789, a Revolta dos Alfaiates também agregou elementos culturais de resistência do povo negro. Apesar de representar um movimento coordenado inicialmente pela elite local branca, a revolta por esta foi abandonada e “deixada” nas mãos de grupos populares. A inspiração libertária oriunda do velho continente resultou num ato de extrema ousadia explicitada nas palavras de Prudente (2010):

Em 12 de agosto de 1798, os soteropolitanos acordaram com uma surpresa. Nas principais ruas de Salvador, nas paredes e nos muros havia boletins com mensagens revolucionárias. Encontrava-se, também, um programa da revolução que questionava o clero, o poder e propugnava a igualdade e a liberdade para todos. No documento, a questão do direito racial era evidente (PRUDENTE, 2010, p. 24)

                No caso da Revolta dos Malés é possível identificar de forma mais clara o elemento cultural presente na luta de resistência dos negros escravos. A complexidade cultural do continente africano é destacada nesta revolta quando se dá conta que os principais agentes revolucionários professavam a fé islâmica e exatamente em defesa desta e afrontando a hegemonia cristã, ou seja, o poder de seus senhores e se rebelam no ano de 1835.
                A revolta é sufocada e seus líderes condenados ao degredo, à pena de morte e à prisão, mas marcou na história da resistência negra e escrava um momento de luta contra a dominação não só política, escravocrata, mas particularmente cultural, pois os malés, ou muçulmanos em iorubá, conforme esclarece Prudente (2010) lutaram em defesa da sua cultura, da sua identidade, com aspirações revolucionárias.
                No decorrer do processo de luta pela liberdade e pela sobrevivência da cultura negra, outras formas de embate e resistência foram adquirindo forma. Assim, entre armas e batuques os folguedos populares emergiram de contextos de luta e de afirmação identitária, não podendo a hegemonia dominante desprezá-los, restando então incorporá-los.

                A Congada como mediação de uma identidade consentida

                Folguedo popular de origem africana, as Congadas assimilaram elementos da hegemonia dominante (cristã) com elementos da resistência negra. O negro escravizado, nos atos simbólicos que o folguedo encena assume posições de comando que na real sociedade colonial e escravocrata não lhe é permitido, ou possível.
                Mesmo diante de uma manifestação originalmente negra, africana, sua “aceitação” pela cultura dominante branca e cristã se deu ao fato das congadas, ou dos Ternos de Congos terem necessariamente ligação com as confrarias religiosas, ou irmandades, incorporando assim elementos dominantes da cultura cristã. Essa identidade consentida acabou por permitir a participação do negro no espaço de poder branco, como afirma Prudente (2010), mas dentro de uma relação ainda dominante da fé hegemônica.
                O auto dramático que promove a coroação do rei e da rainha do Congo, aprisionados e trazidos ao Brasil na condição de escravos e reconhecidos por seus súditos possibilita aos negros partícipes e devotos dessa tradição um momento de reafirmação de suas identidades. Essa tradição tem o primeiro registro de sua existência no ano de 1733. O negro rei em questão, primeiro rei Congo que se tem notícias nas Minas Gerais, segundo Maria José de Souza (2002), trata-se de Chico Rei:

Registra-se a existência de dança de negros em Vila Rica desde o início do ciclo minerador, mas conclui-se que a fonte criadora das diversas modalidades de Reinados de Congos, esteja ligada às solenidades que todos os anos promovia Chico Rei, considerado primeiro Rei Congo. A primeira documentação em que se aparece o cortejo de negros da Irmandade do Rosário dos Pretos é na procissão do Triunfo Eucarístico realizado em Ouro Preto, em 24 de maio de 1733 (SOUZA, 2002, p. 98).

                Desde os primeiros registros de manifestações culturais negras nas Minas Gerais é possível constatar a presença das Irmandades. Esse salvo-conduto do poder dominante está presente na história das Congadas em Minas Gerais. Com o exemplo de Poços de Caldas, levantado por Souza (2002) pode-se constatar que o surgimento do primeiro terno de congos se dá após a criação da Igreja de São Benedito, em 1905, por Herculano de Araújo Cintra e registro da Irmandade de São Benedito, cujos estatutos foram registrados em Belo Horizonte no ano de 1916.
                A festa em Poços de Caldas acontece, diferentemente de outros tantos municípios mineiros, em maio, tendo início no primeiro dia do mês e sua consagração no dia 13. Essa data tem ligação com os desígnios do poder dominante, pois consta que a doação de área para a Irmandade de São Benedito com o intuito de se levantar a igreja do “santo negro” foi realizada pelo Coronel Agostinho e este completava anos no dia 13 de maio, assim a festa já centenária de São Benedito, em Poços de Caldas, ou a festa das Congadas acabou por ser associada ao “padrinho do Santo”.
                Ao negro foi permitida a afirmação de sua identidade e manifestação de sua cultura, mas dentro de uma esfera ainda de dominação e supremacia dos valores cristãos dominantes. Há uma incorporação da cultura negra pela cultura hegemônica com a imposição de alguns limites que tinham por objetivo coibir a expressão de sua grandeza cultural. Como evidencia Prudente (2010)

O negro entra na Igreja, na condição de negro, configurando condição sócio-econômica. Entretanto, o afrodescendente é proibido de entrar no espaço da fé cristã com o valor do negro, implicado no saber essencial da tradição religiosa, evitando a expressão de sua grandeza cultural, possível espaço onde se localiza sua ontologia negada (PRUDENTE, 2010, p. 50).

                Ao abordar a questão sobre esse sincretismo presente na constituição das congadas, Souza (2002, p. 109)) é contundente ao afirmar que a permissão dada aos negros para a constituição de seus reinados “era dada visando diminuir suas forças, pois se fosse permitido aos negros que se reunissem, as suas vistas, poderia se evitar desse modo que eles fossem procurar o Reinado real dos aquilombados”.
                Os congados são desse modo expressões da resistência cultural negra presente nos dias atuais e que trazem em sua história elementos da cultura dominante. Na perspectiva do cotidiano atual, onde a cultura dominante, cristã e branca exercem sua hegemonia sufocante, os congados constituem-se como resistência, mesmo tendo sido erigidos sob as rédeas da cultura hegemônica, pois se fazem a partir da expressão negra, das suas danças, das suas cores e dos seus cantos.
                A afirmação identitária da população negra, ex-escrava passa necessariamente pela compreensão de sua história, das lutas e resistência contra o seu extermínio, físico e cultural. Presentes em todos os momentos de luta contra a escravidão, pela igualdade racial, os elementos culturais negros, mesmo “desvirtuados” pela hegemonia cultural dominante se constituem como importante fundamento da resistência.
Mesmo diante das discrepantes relações de poder que marcam a história do conflito entre dominadores e dominados no Brasil, a cultura oprimida tem se formado no processo dialético “da luta da força que se opõe à outra”. Assim, conhecer, valorizar e reafirmar a cultura dos oprimidos, dos negros é reforçar essa luta, no sentido de se constituir uma correlação de forças mais favorável à emancipação dessa população secularmente reprimida e, acima de tudo, forjar uma sociedade baseada na tolerância e no respeito à diversidade.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
PRUDENTE, Celso. Gênero e Diversidade na Escola. Ufla: Lavras, 2011.
SOUZA, Maria José de. O reinado dos Congos. In: Revista Comissão Mineira de Folclore. N. 23, agosto de 2002.


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Chega de extermínio de moradores de rua

Fonte: JORNAL BRASIL DE FATO www.brasildefato.com.br 





Faço quatro pedidos à ministra Maria do Rosário da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR): 1. que, na grande Goiânia, os moradores de rua sejam incluídos no Sistema de Proteção a Pessoas Ameaçadas do governo federal; 2. que as investigações das mortes de moradores de rua sejam federalizadas imediatamente; 3. que os resultados das investigações sejam públicos e amplamente divulgados na mídia; 4. que os responsáveis sejam processados, julgados e condenados com rigor e rapidez
 Frei Marcos Sassatelli *

De 12 de agosto de 2012 a 6 de abril deste ano, 28 moradores de rua foram barbaramente assassinados em Goiânia e na grande Goiânia, a maioria jovens, adolescentes e até crianças. Pela sua gravidade e pelo seu requinte de crueldade, o caso teve, e ainda tem, uma repercussão nacional e internacional.
Estima-se que, em Goiânia, existam cerca de 900 pessoas em situação de rua.
Sábado passado, dia 6 deste mês, foi realizada na capital goiana uma reunião de emergência com a presença de uma Comissão do Governo Federal, coordenada pelo Secretário Nacional da Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Gabriel Rocha - que veio de Brasília especialmente para isso - e representantes de diversas entidades locais de defesa dos direitos humanos.
Na reunião, da qual participei, ficou claro que existe na grande Goiânia “uma política de extermínio seletivo”. “Goiânia - diz o Secretário Nacional - tem grupo de extermínio”. O caso é gravíssimo. O medo se espalha entre os moradores de rua.
Diante da inoperância do governo estadual, de sua incapacidade de resolver o problema e, sobretudo, diante de fundadas suspeitas da existência de um grupo de extermínio, o governo federal não pode ser omisso. Ele precisa intervir com urgência e rapidez.
Em nome da Pastoral dos Povos de Rua do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia e, penso poder dizer também, em nome de todos aqueles e aquelas que lutam na defesa dos direitos humanos e, de maneira especial, da vida dos moradores de rua, faço quatro pedidos à ministra Maria do Rosário da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR):
1. Que, na grande Goiânia, os moradores de rua sejam incluídos, com a máxima urgência, no Sistema de Proteção a Pessoas Ameaçadas do governo federal;
2. Que as investigações das mortes de moradores de rua sejam federalizadas imediatamente;
3. Que os resultados das investigações sejam públicos e amplamente divulgados na mídia;
4. Que os responsáveis sejam processados, julgados e condenados com rigor e rapidez.
Chega de tanta violência e de tanta barbárie! Chega de extermínio de moradores de rua! É o que todos e todas nós esperamos. Os moradores de rua são nossos irmãos e irmãs. Eles e elas têm a mesma dignidade e o mesmo valor que nós temos.

Frei Marcos Sassatelli é frade dominicano.

Chega de extermínio de moradores de rua

Fonte: JORNAL BRASIL DE FATO www.brasildefato.com.br 




Faço quatro pedidos à ministra Maria do Rosário da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR): 1. que, na grande Goiânia, os moradores de rua sejam incluídos no Sistema de Proteção a Pessoas Ameaçadas do governo federal; 2. que as investigações das mortes de moradores de rua sejam federalizadas imediatamente; 3. que os resultados das investigações sejam públicos e amplamente divulgados na mídia; 4. que os responsáveis sejam processados, julgados e condenados com rigor e rapidez
 Frei Marcos Sassatelli *

De 12 de agosto de 2012 a 6 de abril deste ano, 28 moradores de rua foram barbaramente assassinados em Goiânia e na grande Goiânia, a maioria jovens, adolescentes e até crianças. Pela sua gravidade e pelo seu requinte de crueldade, o caso teve, e ainda tem, uma repercussão nacional e internacional.
Estima-se que, em Goiânia, existam cerca de 900 pessoas em situação de rua.
Sábado passado, dia 6 deste mês, foi realizada na capital goiana uma reunião de emergência com a presença de uma Comissão do Governo Federal, coordenada pelo Secretário Nacional da Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Gabriel Rocha - que veio de Brasília especialmente para isso - e representantes de diversas entidades locais de defesa dos direitos humanos.
Na reunião, da qual participei, ficou claro que existe na grande Goiânia “uma política de extermínio seletivo”. “Goiânia - diz o Secretário Nacional - tem grupo de extermínio”. O caso é gravíssimo. O medo se espalha entre os moradores de rua.
Diante da inoperância do governo estadual, de sua incapacidade de resolver o problema e, sobretudo, diante de fundadas suspeitas da existência de um grupo de extermínio, o governo federal não pode ser omisso. Ele precisa intervir com urgência e rapidez.
Em nome da Pastoral dos Povos de Rua do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia e, penso poder dizer também, em nome de todos aqueles e aquelas que lutam na defesa dos direitos humanos e, de maneira especial, da vida dos moradores de rua, faço quatro pedidos à ministra Maria do Rosário da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR):
1. Que, na grande Goiânia, os moradores de rua sejam incluídos, com a máxima urgência, no Sistema de Proteção a Pessoas Ameaçadas do governo federal;
2. Que as investigações das mortes de moradores de rua sejam federalizadas imediatamente;
3. Que os resultados das investigações sejam públicos e amplamente divulgados na mídia;
4. Que os responsáveis sejam processados, julgados e condenados com rigor e rapidez.
Chega de tanta violência e de tanta barbárie! Chega de extermínio de moradores de rua! É o que todos e todas nós esperamos. Os moradores de rua são nossos irmãos e irmãs. Eles e elas têm a mesma dignidade e o mesmo valor que nós temos.

Frei Marcos Sassatelli é frade dominicano.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Especulação imobiliária e o direito à Cidade em Poços de Caldas



Terreno situado na Av. Champagnat ocupa quase um quarteirão e nunca cumpriu função social. De acordo com a Constituição Federal, pode até ser desapropriado

Exemplo do uso do espaço público para interesse privado

Questão: Se fosse um vendedor ambulante usando o 
espaço público, teria essa tranquilidade?

Casas Bahia usando o espaço público

Cracolândia, mais policiais que agentes de saúde

por Eduardo Sales de Lima (Brasil de Fato)

Estratégia de “limpeza social” não deu certo


O fracasso da ação do Estado na Cracolândia refletiu a opção pela repressão policial às ações de agentes de saúde. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública, desde janeiro ocorreram 489 prisões, mais de 6 mil encaminhamentos para serviços de saúde e 775 internações, além de 66 quilos de drogas apreendidos.
Seis meses depois das ações repressivas da PM, a região, que abrange os bairros de Campos Elíseos e da Luz, continua com massiva presença de dependentes de crack. A pretendida “limpeza” da área pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB), em parceria com a administração Gilberto Kassab (PSD), não deu certo. (com informações da Rede Brasil)

Derrubaram o Pinheirinho




Documentário feito pelo companheiro Fabiano Amorim. Uma excelente abordagem, completa e crítica sobre a expulsão de mais de 6000 pessoas de suas casas em nome da sagrada "propriedade privada". A mando da justiça, com respaldo do governo do PSDB paulista e da cidade de São José dos Campos, milhares de pessoas, crianças, velhos, mulheres, necessitados foram tratados como animais, jogados na rua para beneficiar um empresário libanês. 

Contatos com o diretor: fabiano.silva.amorim@gmail.com 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Crack, caso de polícia ou de saúde pública?



Excelente reportagem sobre o crack, a dependência e as tímidas formas de enfrentamento por parte do Estado diante desse mal que assola o país


Crack: é sempre mais fácil culpar a substância

Gabriela Moncau e Júlio Delmanto*

Um ano após a fatídica “Operação Sufoco”, conhecida como “Operação Dor e Sofrimento”, novamente janeiro se inicia sob ameaça de violações de direitos humanos na região conhecida como “cracolândia”, no centro de São Paulo.
Desta vez, o governo estadual sinaliza, inclusive em artigo publicado por sua Secretária de Justiça na Folha de S.Paulo, a disposição de implementar uma política de internação compulsória em massa de usuários de crack. Pobres, evidentemente, ou a PM e a Assistência Social levarão suas camisas de força aos Jardins e ao Morumbi?  
Inicialmente, cabe ressaltar que nem todo uso de crack é problemático. É absolutamente incorreto proceder como a Secretária e chamar de “viciado” a todo frequentador  da “cracolândia” ou usuário – qual a base utilizada para este diagnóstico?
O pânico em torno da suposta “epidemia” no consumo de crack foi construído, política e midiaticamente, sobretudo por conta das populações pobres que fazem um consumo mais visível, afinal a prática é disseminada por todas as classes sociais. É sempre mais fácil culpar uma substância do que olhar para a complexidade causadora e mantenedora da vulnerabilidade de pessoas alijadas de todos seus direitos.
Se não houvesse crack estariam resolvidos os problemas da população vulnerável de São Paulo? A utopia da guerra às drogas, que prega o desaparecimento de algumas substâncias enquanto se esbalda no dinheiro de álcool, tabaco e remédios, resolve a demanda urgente por moradia, trabalho, educação, saúde ou serve somente para desviar a atenção dos verdadeiros problemas?
Em seu artigo, a Secretária de Justiça lembra que a lei federal 10.216/2001 prevê internações involuntárias e compulsórias. De fato, tratamentos não voluntários são não só legais como necessários em casos extremos de risco de morte. No entanto, ela convenientemente esqueceu-se de outro trecho da mesma lei, que define que “a internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes”.
Esqueceu-se também que o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas tem como premissa, em seu artigo 4, o respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana, especialmente quanto à sua autonomia e à sua liberdade. Além disso, o artigo 22 demanda, como diretriz, a existência de um projeto terapêutico individualizado e orientado para a inclusão social.
O que o governo estadual, premido pela busca da higienização social de áreas altamente cobiçadas pela especulação imobiliária, principal financiadora das campanhas políticas no Brasil, busca fazer é transformar a exceção em norma, através da internação em massa de pessoas as quais nunca foram oferecidas outras alternativas. Um processo que além de higienista é ineficiente: o respeitado psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira indica que cerca de 98% das pessoas internadas involuntariamente sofre recaídas.
Depois de milênios convivendo com o uso de drogas utilizando de controles sociais não penais, nossa sociedade tem apostado no modelo proibicionista há cerca de um século, com resultados desastrosos. Além de não diminuir o consumo, a proibição representa não só violência do crime e do Estado e corrupção, mas também uma mentalidade autoritária que impede tratamento eficiente ao minoritário uso problemático. “Não há maior sinal de loucura do que fazer uma coisa repetidamente e esperar a cada vez um resultado diferente”, já disse Albert Einstein – até quando vamos autorizar nossos políticos a seguirem agindo de forma tão insana?  
* Gabriela Moncau e Júlio Delmanto são jornalistas e membros do Coletivo Desentorpecendo a Razão (DAR) e da Frente Nacional Drogas e Direitos Humanos. 
Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/11564 , disponível em 22/01/2013 

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O que é o Capital







Introdução

A proposta deste pequeno artigo é compreender o capital enquanto movimento de produção e reprodução de mais valia, ou “mais valor”. Esse princípio metodológico possibilita a sistematização do sistema social baseado na propriedade privada dos meios de produção e divisão e exploração do trabalho, o sistema capitalista. Pretende-se aqui refletir sobre a possibilidade de existir um “capitalismo bom” do ponto de vista de toda a sociedade.
Logicamente não se pretende aqui fazer uma análise profunda sobre o sistema capitalista, mas uma leitura crítica do processo de produção e reprodução do capital dentro dos limites de um pequeno artigo. Essa se dará sobre os principais pontos conceituais da concepção marxista da história e da construção desse sistema social compreendido pela filosofia marxista. Um estudo do desenvolvimento do capital, sua forma de construção e reprodução.

I

O sistema social do capital será analisado sob ótica do materialismo histórico. A categoria do capital é complexa, sendo considerada pela intelectualidade, marxistas e não marxistas, uma das mais importantes ciências históricas da humanidade já produzidas. Sua expressão histórica, desde o século XVI, define toda a constituição da modernidade no Ocidente, impulsiona sua expansão sócio-territorial e promove o desenvolvimento do modo de produção capitalista, a ferro e fogo, por quase todo o planeta, desenhando um novo mundo, o “mundo globalizado”.
Para Marx, o modo de produção dos bens necessários à sobrevivência do homem determina a constituição da sociedade, do homem e de sua consciência, determina toda a formação social. As relações estabelecidas no espaço coletivo de produção (sobrevivência), as formações grupais nada mais são de que, modos de organização da vida social, onde se criam os modos de produzir os bens necessários à vida humana.
Para fins de esclarecimento, pode-se citar o filósofo francês, radical iluminista, Jean Jaques Rousseau: “o homem é fruto do meio em que vive”. A reflexão marxista parte do princípio que o trabalho é uma categoria humana, somente o homem exerce a capacidade de agir conscientemente sobre o seu meio, transformando-o e sendo transformado também por ele. Ao agir, o homem aprende, memoriza, projeta idéias, conhecimento, se faz um ser capaz, completo, com potencialidades “infinitas” em sua razão.
Em suma, o trabalho é uma condição humana.

II

Mas no sistema capitalista a especificidade humana (pensar e agir conscientemente) é dilacerada, o trabalho é dividido e se torna alienado, o homem já não é o sujeito de seu trabalho, sua força de trabalho é cedida às necessidades do capital. O homem trabalha, mas perde a condição de senhor de seu trabalho e de sua vontade, se transforma numa mercadoria a ser comprada no mercado, a mercadoria mais importante do sistema capitalista, pois é a única mercadoria que ao ser consumida, gera valor, a mercadoria de nome , força de trabalho.
Na verdade, a lógica do capital impulsionou o colonialismo, a formação do mercado mundial, o imperialismo e a denominada globalização (cujo nome preciso é mundialização do capital). As inovações técnico-organizacionais da produção de mercadorias no Ocidente ocorreram determinadas pela lógica do capital. Nesse sentido o surgimento da manufatura e da divisão manufatureira do trabalho, o desenvolvimento da maquinaria e da grande indústria são regidos por uma lógica de produção de valor. (o modo de produção capitalista produz valor. Não interessa o valor de uso - pra que serve! - da mercadoria, mas sim o valor de troca).
O desenvolvimento do modo de produção social de um produto privado, concentrador e excludente impulsiona o surgimento de duas classes sociais antagônicas, em constante conflito, uma a subjugar a outra. A classe burguesa, proprietária dos meios de produção e a classe proletária, (trabalhadores que produzem riquezas) se chocam num movimento dialético (movimento impulsionado pelas contradições: tese - antítese - síntese - tese - antítese - síntese...), um movimento histórico.
O capital definido por “dinheiro” é simples e errôneo. A categoria capital é muito complexa, portanto seu estudo é profundo e amplo. O capital se constitui a partir do modo de se produzir a realidade, de se produzir os bens necessários à sobrevivência do homem, mas se estende, configura um sistema social, um modo de se pensar e agir sobre o mundo, uma ideologia. O capital, enquanto sistema social determina o próprio desenvolvimento da categoria homem, humanidade e civilização.

III

Num primeiro momento podemos afirmar que o capital não é uma coisa, mas uma relação social. Assim o objetivo do movimento do capital é a acumulação de riqueza abstrata, de dinheiro. Esse “fazer dinheiro” se dá através da produção de mercadorias. A base da produção capitalista é assentada na propriedade privada dos meios de produção, na divisão hierarquizada do trabalho. A acumulação de valor abstrato se dá através da exploração do trabalho. O trabalho, nas relações capitalistas de produção é transformado em mera mercadoria (um mero valor de troca), dependente das leis de mercado (oferta e procura, fundamentalmente) O trabalho, diante da existência do “exército industrial de reserva”, o que Marx classificou como a massa de “despossuídos”, desempregados que forçam o valor de troca da força de trabalho para patamares mínimos. O trabalho se torna uma mercadoria importante na produção de mais valia, barata e abundante, para o sistema é essencial, não para o ser humano.
O capital acaba por determinar o metabolismo social de toda a sociedade, se impondo pela força da lei e dos costumes. Marx coloca a seguinte expressão: “a história de todas as sociedades não deixa negar que as idéias dominantes de uma época são as idéias da classe social dominante”. No sistema do capital as idéias dominantes são as idéias da classe burguesa (proprietários dos meios de produção, indústrias, bancos, terras...). Seus valores: consumismo, individualismo, “endeusamento” da propriedade privada, promovem a alienação do trabalho e da existência do ser humano, esse processo seria definido por Gramsci, como ”desumanização do ser”. A ideologia (conjunto de idéias e valores que visa manter uma determinada ordem social) para Lênin seria o elemento necessário para a formação de uns tantos “operários de barriga, mas burgueses de cabeça”, cegos diante de sua realidade e de sua condição de explorados.
A forma de dominação do capital (o capital precisa dominar, precisa conter os reflexos da contradição que ele próprio gera) se dá pela força, através da lei e se materializa no estado moderno. O estado moderno que nós conhecemos é o estado criado e moldado pela burguesia, ao seu gosto. Outra forma de dominação e manutenção da ordem capitalista é a ideologia, transmitida pela educação, pela família burguesa, pela religião burguesa e hoje, a grande arma manipuladora de mentes, a mídia, ou grandes meios de comunicação de massa. Nesse sentido, o capital cria as condições para a sua reprodução e manutenção do processo, usando de suas armas (estado e ideologia) para conter a contradição do seu movimento.


A expropriação do trabalho, a acumulação de capital e o desenvolvimento do capital


A expropriação do trabalho vivo instaurou a classe social do proletariado. Esse processo determinou a alienação do trabalho. O que significa que o proletário é alienado não apenas do produto do trabalho, mas de todo o processo do trabalho. O trabalho é uma mercadoria muito importante para o capitalista, “é a única mercadoria capaz de gerar valor ao ser consumida”.
O trabalho fragmentado, alienado produz valor abstrato que é acumulado pelo proprietário dos meios produtivos, esse valor abstrato tem de ser investido no desenvolvimento do próprio capital, pois a livre concorrência faz do capital um sistema em constante transformação das técnicas produtivas com vistas à liberdade econômica, de se produzir mais e mais com vistas ao lucro e aplicação desse na reprodução do sistema..
Deste modo, poderíamos dizer que, é o movimento de acumulação de riqueza abstrata que denominamos capital. É aquilo que poderíamos expressar através da fórmula desenvolvida por Marx: D-M-D (onde D é dinheiro e M é mercadoria). Ou seja, o capitalista investe um valor x de dinheiro para a produção de mercadorias que, ao serem vendidas no mercado, após serem processadas pelo trabalho e acumulado o valor produzido por este, se transformam num valor x de dinheiro (o lucro). É isto que interessa ao capitalista: o acréscimo da riqueza abstrata, o lucro, o “mais-valor”, resultado desse movimento de valorização do valor. Ele não se interessa pelo valor de uso das mercadorias, mas pelo seu valor de troca, pois este sim permite a acumulação da riqueza abstrata. Esse valor abstrato é o que Marx denominou mais-valia. O capital se move nesse sentido. Essa compreensão é que faz de Marx quase um “profeta”, mesmo que um profeta baseado no materialismo, ao prever a formação de blocos econômicos mundiais de poder e movimentação do capital.
A lógica de acumulação do capital assumiu num primeiro momento uma forma de acumulação primitiva. É necessário que haja grande quantidade de capital (dinheiro) para o desenvolvimento do “fazer dinheiro” (D-M-D). Nesse sentido podemos entender o processo histórico da colonização, do mercantilismo (exploração de matéria-prima das colônias para a demanda industrial das metrópoles). Essa fase foi importante para que o capital pudesse acumular forças para o seu pleno desenvolvimento. O surgimento do capitalismo comercial teve o seu desenvolvimento acentuado no século XVI e XVII, tendo sido a Inglaterra, o berço do capitalismo.
A acumulação do capital é uma forma violenta de relação social. Marx afirma que “o capitalismo nasce com as mãos sujas de sangue, com a infâmia da escravidão moderna”. A escravidão moderna representa um momento de acumulação primitiva de capital e com a construção da revolução industrial, o trabalho escravo deixa de existir (na concepção de que escravo seja um “semovente”, porque escravos ainda existem, sob vários focos de leitura), esgotados pela formulação de capital suficiente para o avanço do capitalismo, os escravos se tornam “livres”, ou assalariados (mercadoria variante de acordo com as leis da economia, de Adam Smith). A acumulação de capital se constitui num processo violento, de formação de uma sociedade “organizada” para explorar o trabalho em função do desejo do lucro, ou reprodução do capital.



As constantes transformações do capital, sua crise estrutural e o movimento da dialética

O capital se constituindo em sistema social está presente em nossa vida. Esse sistema que gera uma contradição latente entre classes que ele antagoniza, a burguesa e a proletária, tem todo um movimento contraditório ao movimento do capital e fácil é de perceber que pensando materialmente, nas condições de vida e trabalho, a classe proletária existe, é uma classe volumosa, capaz frente uma classe numericamente ínfima, mas com grande poder de manutenção da ordem do movimento do capital.
Crises são constantes do sistema capitalista, ele é em si, sua própria morte. Marx bem colocou que o capitalismo gera, acima de tudo, seus próprios coveiros. O capital é destrutivo ao homem, é um sistema individualista, predatório, desumanizante. Todos os avanços científicos, toda a ciência média, todo progresso requer acesso econômico. Tudo no sistema capitalista tende a ser “mercantilizado”, até mesmo alimentos, água, remédios... O capital necessita dessa apropriação das coisas em sua função, pois sua existência se baseia num movimento de expropriação, exploração e acumulação. Assim se faz o capital que é o movimento base de toda a sociedade capitalista.
Inverter essa lógica é imprescindível para a possibilidade de se transformar a realidade em que vivemos, para re-direcionar nossa “evolução”, ou, fazer a “revolução”. O capitalismo é um sistema de inteligência, dinâmico, científico, mas que visa sua auto-reprodução, explora, acumula e divide os homens. Diante dessa constatação material, cabe àqueles que vivem a antítese desse processo, os trabalhadores conscientes, organizados, unidos fazer a roda da história mudar o sentido. Libertar o trabalho dessa condição, humanizá-lo e torná-lo um instrumento social, voltado para o coletivo de produção da existência humana, são objetivos dos que lutam conscientemente contra o capital.
Os meios que produzem os bens necessários à vida jamais poderão ser propriedades de indivíduos, propriedades privadas em função do egoísmo social. Revolucionar a forma de pensamento, questionar a propriedade privada, a função do trabalho e o resultado, ou produto deste, qual a sua finalidade... Isso deve ser feito, refletido, pois o capital nos levará rapidamente para o fim da existência humana, com certeza, sua forma de produção e reprodução são danosas ao meio ambiente, ao ser humano, a toda humanidade.
Compreender para transformar! Não é possível capitalismo “bom”, nem tampouco “justiça” nesse sistema, o capitalismo procura enganar, iludir, mas sua lógica é autodestrutiva, tudo gera em torno do seu movimento. A antítese, diante do avanço do capitalismo e seu desenvolvimento, se fortalece, mas, a história não se faz por si só, ela é feita pelas mãos dos homens e mulheres que se lançam para a luta. Barrar o sistema do capital é uma luta pela humanidade primeiramente, depois uma luta pelo socialismo.


Bibliografia:

ENGELS, F., MARX, K. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Martin Claret, 2001.

LENIN, W. I.. As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo. 3ª ed. São Paulo: Global, 1980.

MARX, Karl. Manuscritos Econômicos Filosóficos. São Paulo, Martin Claret, 2002.

MÉSZÁROS, István. Formas Mutantes do Controle do Capital. In: Apostila: Curso de Extensão Universitária: Trabalho e Globalização / UNESP, 2004

Diney Lenon de Paulo

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Lei de Anistia pode ser revista, diz Promotor Militar


 Tese jurídica abre novo caminho para investigar desaparecimento 

forçados e reanima debate sobre a validade da Lei da Anistia

Disponível em: www.brasildefato.com.br

 

Promotor militar explica tese jurídica que abre brecha na Lei da Anistia

 

Otávio Bravo conseguiu reabrir, em fevereiro de 2010, 29 casos de desaparecimentos forçados praticados no Rio de Janeiro e Espírito Santo durante a ditadura

“Eu tenho curiosidade de saber como o STF vai julgar a tese que define desaparecimentos políticos na ditadura brasileira como sequestros. Essa tese o Supremo não avaliou ainda”. A declaração é do promotor militar Otávio Bravo. Equiparando o crime de desaparecimento forçado ao crime de sequestro, o promotor encontrou um novo caminho para investigar estes crimes cometidos durante a ditadura e reanimou o debate sobre a validade da Lei da Anistia. 

Nesta entrevista exclusiva concedida ao Sul21, ele explica em detalhes a tese jurídica utilizada para retomada das investigações e faz interessantes avaliações sobre os desafios que a Comissão da Verdade terá para trazer à tona informações relevantes sobre o período de exceção. Sobre a instalação da comissão, Bravo destacou um dos principais entraves para investigar os anos de chumbo: a dificuldade de ter acesso a documentos dentro e fora das Forças Armadas. 
O promotor conhece bem as barreiras impostas não só pelos militares para ter acesso a arquivos que demonstrem o que ocorreu nos porões da ditadura. Ele revelou que a seccional da OAB do Rio de Janeiro também está criando empecilhos para encaminhar documentos solicitados. 
Mesmo sabendo das inúmeras dificuldades e ainda com sérias dúvidas do potencial da Comissão da Verdade, Bravo disse que apoia a iniciativa. “Qualquer investigação sobre ditadura militar é válida”, lembrou. 
Sul21 – Vinte e nove casos de desaparecimentos forçados foram reabertos pela Procuradoria da Justiça Militar. Quero que o senhor comece explicando a tese utilizada para reabrir esses casos.
Otávio Bravo - Foram três fatos determinantes. O primeiro foi a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) sobre o caso Araguaia, a qual determinou que o Brasil tem obrigação genérica de investigar os casos de desaparecimentos forçados, não só os que ocorreram no Araguaia, mas em geral. O segundo foi o fato do Brasil ter ratificado no final de 2010 a “Convenção Internacional contra o Desaparecimento Forçado” da Organização das Nações Unidas (ONU). E a tese jurídica que permitiu a abertura dos processos veio do próprio Supremo Tribunal Federal (STF), de dois casos de extradição julgados em 2009 e 2011 de pessoas que teriam participado de crimes durante o estado de exceção na Argentina. Existe uma figura jurídica que só permite ao Estado a extradição de uma pessoa quando o crime não está prescrito no país da extradição, ou seja, o Brasil só pode extraditar pessoas se o crime não está prescrito na lei brasileira. Ao tratar das várias acusações contra essas duas pessoas, o STF até negou a extradição para uma série de atos que eram imputados a estes militares, mas entendeu que os desaparecimentos forçados equivaliam ao crime de sequestro que é considerado no Brasil um crime permanente. 
Sul21 – O que é exatamente um crime permanente? Que mudança esse entendimento trouxe para a investigação de desaparecimentos forçados?
Otávio Bravo - É crime permanente aquele crime cujo final não se comprova. Portanto, presume-se que ele ainda está acontecendo até que se tenha certeza que acabou. De modo que o prazo de prescrição destes crimes permanentes é quando o sequestro chega ao final. A minha iniciativa foi apenas transportar essa tese utilizada nas extradições para os casos de desaparecimentos forçados no Brasil que também equivaleriam a sequestro pois não se sabe quando terminaram, não estão prescritos e logo não são cobertos pela Lei da Anistia que vai até 1979. Isso tudo deu embasamento jurídico para iniciar as investigações. Não significa dizer que todos os casos levarão militares ao banco dos réus já que as investigações podem levar a conclusão de que desaparecidos podem ter morrido antes de 1979 e os casos estarão prescritos e anistiados. A ocultação de cadáver também é permanente é só é considerado prescrito quando o cadáver aparece. Aí eu teria uma opinião para remeter para o Ministério Público Federal (MPF), a Procuradoria da República, porque o crime de ocultação de cadáver não é de competência da Justiça Militar, é da Justiça Federal. A base jurídica, em resumo, é essa. 
Sul21 – Por que estes crimes permanentes são de competência da Justiça Militar?
Otávio Bravo - Esses casos particulares são de competência da Justiça Militar porque envolvem sequestros ocorridos dentro de unidades militares, pessoas desapareceram dentro de unidades militares com militares exercendo função. Isso faz, pela legislação brasileira, que seja competência da Justiça Militar. É verdade que em determinado momento eu pretendo abrir mão dessa investigação com base na recomendação expressa da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) de que casos de desaparecimentos forçados não devem ser julgados pela Justiça Militar. 
Sul21 – Qual é a alegação da Corte?
Otávio Bravo - Seria um contrassenso usar o argumento de uma decisão da corte e no final levar um caso desses para a Justiça militar. Embora eu seja da Justiça militar, eu sou um promotor civil. Eu entendo a posição da corte, eu milito na área dos direitos humanos, eu entendo, mas eu acho até um pouco injusta essa recomendação da corte porque a Justiça militar que nós temos no Brasil faz parte do Judiciário e ela não tem uma série de vícios que a Justiça militar de outros países tem. O fato é que a corte determinou isso: que casos de desaparecimentos forçados praticado por agentes militares não sejam julgados pela justiça militar. Então eu devo encaminhar para o MPF. 
Sul21 – Essa tese de desaparecimento forçado por agentes públicos foi utilizada em outros países que tiveram ditaduras militares como a Argentina, Uruguai e Chile?
Otávio Bravo - Na verdade, nesses países as teses foram mais amplas, decretaram na Argentina, por exemplo, uma abrangência muito maior, são os chamados crimes contra a humanidade, crimes de genocídios que são crimes imprescritíveis por causa de convenções internacionais. No Brasil, o STF não aceitou essa tese e declarou válida a Lei da Anistia. O que se fez na Argentina, Uruguai e Chile foi muito mais amplo do que se fez no Brasil. No Brasil, se está discutindo ainda e, na primeira manifestação, o Supremo declarou que a Lei da Anistia continua de pé. Isso que está se falando de sequestro é uma tese única para investigar o crime de sequestro. Mas, por exemplo, se chegar a conclusão que houve um homicídio ou o crime de tortura não se pode fazer nada enquanto a decisão do Supremo não mudar. O Supremo já julgou, mas agora vai reavaliar um embargo de declaração. Eu sinceramente não acredito que o Supremo mude de posição, para mim vai continuar deixando a Lei da Anistia válida. Mas eu tenho curiosidade de saber como o supremo vai lidar com essa tese de sequestro, já que essa tese o Supremo não avaliou ainda. 
Sul21 – Quem foram os relatores do STF que abriram essa brecha para que pelo menos os crimes de sequestro fossem investigados? E que dia foram reabertos os casos?
Otávio Bravo - Foram reabertos em fevereiro de 2010. A extradição de 2009 foi relatada pelo ministro Ricardo Lewandowki e a outra foi relatada pela ministra Carmem Lúcia. As duas extradições foram pedidas pela Argentina. Eu tenho curiosidades de como o STF vai dizer que isso não se aplica a desaparecimentos forçados no Brasil. 
Sul21 – O senhor está investigando o caso do ex-deputado Rubens Paiva que desapareceu em 1971 nas dependências do Doi-Codi no Rio. Como está sendo essa apuração?
Otávio Bravo - Na apuração do caso do ex-deputado Rubens Paiva já cheguei a algumas coisas interessantes: a filha dele — que nunca tinha sido ouvida e que tinha quinze anos na época do desaparecimento — prestou depoimento. A verdade é que não havia investigação até agora do caso, houve um inquérito que acabou arquivado. A cópia deste inquérito está desaparecida, uma coisa meio estranha. Está em algum lugar incerto. 
Sul21 – Outro caso emblemático dos anos de exceção é o caso do Stuart Angel, filho de Zuzu Angel, que teria sido espancado e arrastado por um carro com a boca no cano de escape. O senhor poderia contar como está sendo a investigação?
Otávio Bravo - Ainda não iniciei esta investigação. 29 casos foram abertos mas apenas 3 investigações estão em curso. 
Sul21 – Qual sua opinião sobre as investigações que serão realizadas pela Comissão da Verdade? Que impacto os relatórios produzidos pela comissão poderão ter?
Otávio Bravo - Eu não sei. Depende muito da extensão que a Comissão da Verdade possa ter. Eu ainda não tenho nada que possa me assegurar qual será o impacto político da comissão. Necessariamente acho que uma comissão que tenha amplos poderes para investigar o que passou e que tenha acesso a documentos poderá ser ótima. Não sei se será mais um palco político do que propriamente um espaço de investigação, mas qualquer iniciativa para apurar o que aconteceu naquele período eu acho importante. Agora, não tenho realmente como fazer juízo de valor porque ainda não está funcionando. 
Sul21 – Mas o senhor conhece bem a dificuldade de acesso a dados sobre este período da história brasileira.
Otávio Bravo - Eu tentei várias vezes ter acesso a dados nas Forças Armadas, mas foram negados; dizem que todos foram destruídos. Criam situações até meio ridículas, situações burocráticas que não têm sentido. Por exemplo, uma vez encaminhei uma requisição e eles alegaram que teria que ser encaminhada pelo procurador geral. Criam dificuldades, falta vontade de contribuir. Ao mesmo tempo há umas surpresas desagradáveis, a seccional da OAB no Rio de Janeiro, por exemplo, é uma vergonha. Diversas vezes mandei ofício pedindo informações e nunca me responderam. Eles têm uma campanha contra tortura e pelos desaparecidos políticos que, para mim, não tem valor nenhum. Se existe um órgão que está investigando o assunto e eles não encaminham informações é bastante estranho. Mas também tenho que ressaltar o apoio que tive da Secretaria de Direitos Humanos, da qual não tenho do que me queixar.