Vereadores da cidade querem que os materiais radioativos mesotório e torta ll, estocados nas instalações do Complexo Industrial de Urânio de Caldas (MG), sejam retirados de lá.
Por Joelma Couto
Quem nasceu na região do planalto de Poços de Caldas, Minas Gerais, após 1977, cresceu ouvindo muitas histórias sobre a mina de urânio Osamu Utsumi, localizada no município de Caldas. Uns contam que na infância ouviam dizer que lá se fabricava a bomba atômica, outros ouviam boatos que ligavam o urânio ao ex-ditador iraquiano Saddam Hussein, confirmados no livro “Saddam, O Amigo do Brasil”, do jornalista Leonardo Attuch. Segundo narra Attuch, “Entre os anos de 1976 e 1990, Brasil e Iraque foram grandes parceiros comerciais. Uma das mais sigilosas operações entre os governos do general João Batista Figueiredo e de Saddam Hussein aconteceu no dia 14 de janeiro de 1981. Foi quando dois aviões iraquianos decolaram das pistas do Centro Tecnológico Aeroespacial, em São José dos Campos, e voaram em direção a Bagdá, carregados com o urânio que vinha das minas de Poços de Caldas”.
Em 1982, deu-se início à operação comercial para produção de concentrado de urânio, que durou até 1995. Não se sabe exatamente quantas toneladas de urânio foram extraídas da mina, que fica em um local conhecido como Campo do Cercado. Sabe-se que a produção foi muito pequena, algo em torno de 4.500 toneladas, segundo o site oficial da INB, e 1.200 toneladas segundo folder sobre a produção da mina.
Após a paralisação total das atividades de lavra, iniciou-se outra polêmica na região. Em São Paulo, a Usina de Santo Amaro (Usam), também conhecida por Nuclemon, entrou em processo de descomissionamento, processo de desativação de uma instalação nuclear ao final de sua vida útil, observando-se todos os cuidados para proteger a saúde e a segurança dos trabalhadores, das pessoas em geral e também do meio ambiente.
No entanto, para se descomissionar é necessário desmontar todas as construções envolvidas, retirar até mesmo a terra que se tornou radioativa e depositá-los em um local seguro. Como no Brasil não existem depósitos definitivos, assim como no resto do mundo, a solução foi enviar para a área da antiga mina de urânio de Caldas. A população da região se revoltou. Milhares de toneladas dos materiais radioativos torta ll e mesotório produzidos pela Usam já estavam estocados no local, e os moradores da região ainda teriam que mais uma vez aceitar estes vizinhos indesejáveis?
Maria Augusta Barbosa, moradora de Caldas, conta: “Ficamos revoltados, não fomos nós que produzimos este lixo, por que devemos aceitálo aqui?” Depois de muito barulho da população, apoiada pelo Greenpeace, e da intervenção de autoridades, como o ex-juiz da comarca da Caldas, Ronaldo Tovani, e do ex-secretário de Meio Ambiente do Estado de Minas Gerais, Tilden Santiago, o então governador Itamar Franco proibiu a entrada no Estado de Minas de lixo radioativo oriundo de outros Estados. O pouco que restou em São Paulo ficou no depósito da Usina de Interlagos, ao lado do terreno que abrigará o futuro templo do Padre Marcelo Rossi.
Vereadores preocupados
No último dia 6 de abril, o gerente de descomissionamento da Indústrias Nucleares do Brasil - Caldas, Luiz Augusto de Carvalho Bresser Dores, compareceu à sessão da Câmara Municipal de Poços de Caldas, a convite do vereador Tiago Cavelagna (DEM). Bresser afirmou que mais de 12 mil toneladas de torta ll estão estocadas na unidade de Caldas, mas não trazem nenhum tipo de risco para a população. Os números são altos: 7.588.726 toneladas de rejeitos radioativos, 2.302 toneladas de mesotório em silos aterrados e 1500 toneladas estocadas na barragem de rejeitos, além de 10.159 toneladas de torta ll em bombonas e o restante em silos de concreto aterrados.
Outra preocupação é o chamado bota-fora: milhões de toneladas do que sobrou da lavra de urânio e que contêm minerais ricos em enxofre (sulfetos). Estes minerais sofrem um processo de oxidação natural e em contato com a água da chuva produzem ácido sulfúrico. O ácido dilui na água e solubiliza os metais pesados, como por exemplo o urânio. Mesmo que em quantidades pequenas, quando a água é drenada estes metais também são transportados para a barragem de drenagem ácida.
O lingüista estadunidense Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” através da mídia:
1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranqüilas')”.
2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.
Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.
3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO.
Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.
4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO.
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.
5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE.
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.
6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO.
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…
7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE.
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.
8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE.
Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto… 9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE. Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!
10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM.
No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.
A aprovação da lei da ficha limpa já é o começo de um processo de conscientização da nossa sociedade, ocorrido, a bem da verdade, como uma concessão da mídia do capital. Os escroques que roubaram despudoradamente e nem tiveram preocupação de esconder o ato, confiantes na impunidade por experiência passada, foram surpreendidos por uma horda de íntegros e de "novos íntegros". Estes últimos são aqueles que tiveram cuidado de esconder bem suas falcatruas ou deram sorte e, apesar dos seus passados pecaminosos, não foram flagrados.
Mas, o sistema está muito longe de ser perfeito. Existem os roubos legais dentro da nossa sociedade. São aqueles cujos autores são até reverenciados e mostrados como exemplos de pessoas de sucesso. Há empresários que, em um espaço mínimo de tempo, conseguem acumular fortunas incalculáveis, que os 50% mais pobres da nossa sociedade não conseguem ganhar em todas as suas vidas úteis. Inclusive, fortunas acumuladas dentro da maior legalidade de leis injustas e contrárias aos interesses da sociedade. Não seriam estas fortunas, acumuladas desta forma, roubos? Aliás, Marx já se referiu a este tema como "acumulação primitiva do capital".
Entretanto, os deslizes não são privilégios dos empresários. Entristece-nos que políticos sejam assíduos freqüentadores da galeria de entes danosos da sociedade, porque muitos deles são escolhidos por nós para serem nossos representantes e, no entanto, agem como nossos inimigos.
O deputado Henrique Alves e o senador Romero Jucá colocaram enxertos não negociados em aberto nos substitutivos que redigiram para a Câmara e o Senado, quando o projeto do contrato de partilha remetido pelo Executivo transitava por estas duas Casas do Congresso.
Os citados contrabandos eram de igual teor e significavam o ressarcimento dos royalties pagos pelas empresas petrolíferas, com valor estimado pela Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET) de US$ 15 bilhões por ano. Ainda não está garantido como ficará a nova lei após as votações, mas, se Alves e Jucá saírem vitoriosos, o Brasil será o primeiro país do mundo onde estas empresas não pagam royalties. Notar que o processo legislativo foi cumprido à risca e a maioria dos deputados e senadores aprovou os respectivos substitutivos. O "ficha limpa" não pega esses casos!
E por que eu sei sobre esse fato? Porque existe um grupo de abnegados que vivem fiscalizando o Congresso e o Executivo brasileiros em assuntos relativos a petróleo e outros que afetam diretamente a nossa sociedade. São eles Fernando Siqueira, Diomedes Cesário, Heitor Pereira (falecido), Sydney Reis (falecido), João Victor Campos, Pedro Carvalho, Ricardo Maranhão, Arthur Martins, Roldão Marques, Ricardo Latgé, Ruy Gesteira (falecido), Henrique Sotoma, Argemiro Pertence, Fernando Fortes, enfim, todos diretores e conselheiros, presentes e passados, da Associação. No caso do presidente da AEPET, Fernando Siqueira, além da análise, vai a Brasília mostrar a deputados e senadores de boa índole as suas descobertas e tem conseguido bons resultados.
Alguns dos leitores podem pensar: "Mas eles são corporativos. Estão preocupados em defender a Petrobrás". Primeiramente, defender a Petrobrás coincide, na maioria das situações, em defender o Brasil e a sociedade brasileira. Além disso, em situações em que o interesse nacional se contrapuser ao interesse corporativo, pelo que conheço deles, estarão do lado da sociedade brasileira. Assim, estes são nossos verdadeiros heróis, bem diferentes dos trapalhões sem estofo, que um bufão ridículo da TV brasileira quer nos empurrar.
O projeto Ciclo de Oficinas Culturais Juventude e Cidadania, promovido através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, com incentivo da Alcoa Poços de Caldas apresenta sua 4ª oficina neste sábado, dia 24 de julho, às 16h, na Cia. Bella (Rua Prefeito Chagas, 335, Andar pl).
O Projeto desenvolvido em parceria com o Instituto Cultural Companhia Bella de Artes desde 2006 esse ano apresenta uma inovação, o incentivo da Lei Municipal de Incentivo à Cultura e conta com vários oficineiros de notório reconhecimento que abordarão temáticas ligadas à cultura e sociedade.
O projeto é destinado a estudantes secundaristas, agentes culturais, universitários e população em geral. Focado em oficinas ministradas por militantes culturais com notoriedade e grande reconhecimento público de seus trabalhos, como Carlos Rodrigues Brandão (Antropólogo), Nizar El Khatib (Comunidade de Cultura Árabe), Ronaldo Sales Senna (UEFS), Maria José de Souza (Centro Cultural Afro Brasileiro Chico Rei) dentre outros, o Ciclo de Oficinas Culturais Juventude e Cidadania é um projeto que existe há 4 anos e congrega militantes culturais, estudantes e educadores num espaço coletivo de construção do conhecimento.
Com incentivo da empresa Alcoa Poços de Caldas através de sua aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura e pretende ampliar sua esfera de atuação e abrangência, com maior qualidade, profissionalismo e envolvimento da comunidade aprendente de Poços de Caldas e região.
Apoio: Lei Municipal de Incentivo à Cultura Instituto Cultural Companhia Bella de Artes
Novo formato de provas aprimora o Vestibular Nacional Unicamp
As alterações, que visam à atualização acadêmica e programática do vestibular, também reforçam sua qualidade seletiva. Elas começam a valer a partir do Vestibular 2011
Quem pretende ingressar em cursos de Graduação da Unicamp vai perceber mudanças no formato do vestibular. A Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest) anunciou as alterações, aprovadas por sua Câmara Deliberativa de 03/12, a serem implantadas a partir da próxima edição do Vestibular Nacional Unicamp. As mudanças mantêm os princípios que vêm norteando o processo seletivo da Unicamp desde o seu início e atualiza os pontos relativos aos programas das disciplinas e das áreas do conhecimento contemplados na estrutura atual do ensino médio. Além disso, aprimora o vestibular enquanto instrumento de seleção. Após um período de 24 anos, desde que propôs um novo modelo de provas e passou a elaborar o vestibular de maneira independente, a Unicamp volta a inovar. Primeira Fase A avaliação da escrita na Prova de Redação será ampliada: o candidato será solicitado a produzir três textos de gêneros diversos, todos de execução obrigatória. Até o ano passado (Vestibular Nacional Unicamp 2010), seleciona uma de três propostas e prepara apenas um texto. Essa prova volta a ser corrigida para todos os candidatos, independentemente dos pontos alcançados na Prova de Questões, e seu peso continua valendo 50% da nota da primeira fase do vestibular da Unicamp. O novo formato reforça a integração entre leitura e escrita, além de ampliar as possibilidades de avaliação, aumentando assim a confiabilidade da seleção. Além disso, como os gêneros dos textos a serem elaborados podem variar dentro de um grupo pré-determinado, evita-se o treinamento em apenas uma proposta de texto. Além da mudança na Prova de Redação, a Prova de Questões também muda: o número de questões a serem respondidas pelos candidatos passa de 12 questões dissertativas para 48 questões de múltipla escolha. As questões de múltipla escolha da primeira fase serão elaboradas com base nos conteúdos das diversas áreas do conhecimento desenvolvidas no ensino médio, segundo a seguinte distribuição: 12 questões de Matemática; 18 questões na área de Ciências Humanas, Artes e Humanidades, sendo pelo menos 6 questões de Geografia e 6 questões de História, introduzindo-se questões de Filosofia, Sociologia e Artes à medida que estas disciplinas forem incorporadas de forma plena aos currículos do ensino médio; e 18 questões na área de Ciências da Natureza, distribuídas uniformemente entre Ciências Biológicas, Física e Química. O tempo de duração da prova da primeira fase passa de 4 para 5 horas. Com uma prova mais abrangente, amplia-se o escopo dos conteúdos avaliados, permitindo inclusive que questões nas diversas áreas apresentem variados graus de dificuldade. O maior número de questões (48 contra 12) e de textos elaborados para a Prova de Redação aumenta a precisão dos resultados da primeira fase. O Enem continua a participar com 20% da nota da primeira fase, porém passa a ser de uso obrigatório a todos os candidatos do Vestibular Unicamp. Segunda Fase As provas da segunda fase serão agrupadas de maneira a estimular a avaliação integrada do conhecimento e a interdisciplinaridade na formulação das questões. Serão aplicadas 3 provas de 24 questões dissertativas, realizadas durante três dias consecutivos, com quatro horas a cada dia, sendo (sem seguir a ordem de dias, necessariamente): I - 12 questões de Língua Portuguesa e de Literaturas da Língua Portuguesa e 12 questões de Matemática; II - 18 questões na área de Ciências Humanas, Artes e Humanidades (pelo menos 8 questões de Geografia e 8 questões de História, introduzindo-se questões de Filosofia, Sociologia e Artes à medida que estas disciplinas forem incorporadas aos currículos do ensino médio) e 6 questões de Língua Inglesa; III - 24 questões na área de Ciências da Natureza, distribuídas uniformemente entre Ciências Biológicas, Física e Química. Provas de Aptidão Mantêm-se inalterados os formatos das Provas de Aptidão, que passam a ser denominadas Provas de Habilidades Específicas, tradicionalmente realizadas após a segunda fase. Prioritárias O sistema de provas prioritárias continua existindo, com as seguintes alterações: as coordenações dos cursos determinarão até duas das provas, incluindo a Prova de Habilidades Específicas, como prioritárias. No caso das Provas de Língua Portuguesa e Literaturas da Língua Portuguesa, os pesos para compor a nota final podem ser 1,2 ou 3. No caso das demais provas, pesos 2, 3 ou 4. Opções, nota final e classificação Permanecem inalterados os critérios de aprovação para a segunda fase, o sistema de opções (até duas) e como se calculam as notas utilizadas na classificação para cada opção, alterando-se de forma apropriada os pesos das provas consideradas prioritárias (como citado acima). Não há alterações no sistema de classificação e convocação dos candidatos.
A versão do Estatuto da Igualdade Racial recém aprovada pelo Senado foi bastante discutida nas últimas semanas. Tratando-se de um daqueles temas amplamente abordados tanto pelos grandes veículos de comunicação, como também por aqueles menores, nem por isso as opiniões suscitadas são capazes de consolidar um entendimento mais fundamentado de questão tão complexa. O historiador Mário Maestri amplifica os termos desse debate, tomando-o a partir da atual sociedade capitalista. O historiador alerta para que as discussões estão deixando na ‘penumbra a diferença de qualidade entre a luta anti-racista e a proposta da luta pela igualdade racial’.
P - Qual a importância da discussão sobre a igualdade racial e do Estatuto da Igualdade Racial, para regulamentá-la?
R - Trata-se de debate fundamental, até agora dominado pelas forças do capital e sob sua influência, que tem mantido na penumbra a diferença de qualidade entre a luta anti-racista e a proposta da luta pela igualdade racial. O anti-racismo é luta democrática contra a discriminação na escola, no trabalho, na educação, etc. É parte da luta geral, no aqui e no agora, contra os exploradores, pela extinção da sociedade de classes, base das opressões econômica, nacional, sexual, étnica etc. A luta anti-racista é parte do programa do mundo do trabalho, é mobilização democrática, progressista, revolucionária. A proposta de igualdade racial propõe a existência de raças diversas, que devem ser igualadas no que se refere ao tratamento e, sobretudo, às oportunidades, no seio da sociedade atual. Por além de eventual retórica radical, apesar do indiscutível unitarismo da espécie humana, recupera e trabalha com o conceito medonho de raça e reduz a opressão social à opressão racial de negros por brancos. É programa regressista e conservador, parte das estratégias do capital contra o mundo do trabalho e seu programa. A proposta de igualdade racial avança essencialmente o combate das desigualdades de oportunidades. Denuncia o tratamento, no melhor dos casos, igual, dos desiguais. Através da descriminação positiva, os descriminados negativamente concorreriam em igualdade com os privilegiados, estabelecendo-se, assim, a justiça social. Nos fatos, naturaliza e recupera positivamente a competição social, pilar essencial da retórica capitalista. Para essa ideologia, não há mal em haver opressores e multidões de oprimidos. Desde que exista equilíbrio étnico nos dois segmentos! A África do Sul é exemplo patético e cada vez mais gritante dessa política. Durante décadas, o apartheid serviu para a dura exploração das terras e dos braços negro-africanos. Por isso, o movimento de libertação articulava corretamente a luta contra o racismo e contra a exploração capitalista. Com a derrota mundial dos trabalhadores em fins dos anos 1980, a direção do ANC terminou aceitando substituir a já superada elite racista na gerência da exploração das massas negras sul-africanas. No governo pós-apartheid, mantiveram-se as relações de propriedade e de exploração, ou seja, econômico-sociais, sob a gestão de classe política e lúmpen-burguesia negro-africana, a serviço do capital e do imperialismo. O fim do apartheid estabilizou a opressão de classe, a tal ponto que o país acolhe hoje uma Copa do Mundo, e é apresentado como exemplo a ser seguido! A miséria e a opressão dos trabalhadores e populares sul-africanos seguiram aprofundando-se, sob a batuta de políticos negro-africanos tão corruptos e venais como os brasileiros. Atualmente, eles se preocupam, sobretudo, em formar uma classe média negra, para maior estabilização da nova ordem!
P - Qual a sua opinião sobre as cotas universitárias, o principal e mais discutido tópico de reivindicações do movimento negro?
R – A proposta de igualdade racial e discriminação positiva [cotas estudantis] não se preocupa com as multidões de jovens negros [pardos, brancos, etc.] marginalizados em diversos graus pelo capitalismo. Pretende, sobretudo, conquistar equilíbrio racial entre os privilegiados. De certo modo, é como se propusesse colocar pesos nos corredores brancos, esguios, para igualá-los aos negros, mais pesados, devido a handicaps sociais históricos. Equilibrando-se as desigualdades, os vencedores serão os mais capazes. O problema é que essa corrida premia os cem primeiros chegados e marginaliza os 9.900 perdedores, em diversos graus. O que importa é conquistar equilíbrio racial entre os cem laureados. Uma proposta que sequer vislumbra a possibilidade e necessidade de se pôr fim à competição canibal, para que todos sejam vencedores, segundo seus esforços, capacidades e necessidades. Trata-se de mobilização por um mundo de exploradores e de explorados sem diferenças raciais, desde que no paraíso dos privilegiados e opressores haja vagas cativas para privilegiados e opressores negros! Estudar nas melhores universidades, em geral públicas, é privilégio de pequena minoria de jovens, sobretudo brancos ou quase brancos. A política cotista promete que, um dia, nessa minoria de felizardos, haverá um número proporcional de negros. O que já é uma falácia, pois a base da desigualdade social apóia-se essencialmente na posse e no domínio da propriedade. A proposta cotista despreocupa-se com as multidões de jovens marginalizados – em forte proporção, negros. O fundamental é mais generais, advogados, médicos, engenheiros, farmacêuticos, capitalistas negros. Todos ferrando a população trabalhadora, branca e negra, como fazem normalmente os congêneres brancos. As principais justificativas dessa proposta são duas. A primeira é que, enquanto não chegamos a uma sociedade justa [socialismo] há que melhorar a realidade na sociedade capitalista. O problema é que essa proposta correta justifica o incorreto abandono da luta, no aqui e no agora, do ensino universal, gratuito e de qualidade, parte do programa democrático – e não socialista. Esse programa inarredável das classes populares foi imposto, substancialmente, pelo mundo da democracia e do trabalho, em países como a Alemanha, a França, a Bélgica, a Itália, a Suécia, etc., todas sociedades capitalistas! A segunda justificativa é que o Brasil não teria recursos para garantir esse privilégio para todos. Defendendo o programa cotista, Valério Arcary, intelectual pró-cotista, afirmou, sem enrubescer, que sequer um “governo dos trabalhadores, pelo menos nas fases iniciais da transição ao socialismo, num país como o Brasil, poderia garantir acesso irrestrito ao ensino superior para todos [...]”! O governo brasileiro entrega bilhões a banqueiros e capitalistas, nacionais e internacionais, mas não tem os meios para implementar programa cumprido por Cuba, um país pobre, literalmente desprovido de recursos naturais e de capitais!
P – Então, a quem interessa a política de igualdade racial e as propostasde descriminação positiva na escola, partidos, serviço público etc., apenas rejeitadas pelo Senado, quando da aprovação do Estatuto da Igualdade Racial?
R – Por primeiro, interessa ao capital, grande responsável pela defesa, propaganda e impulsão dessa política nos EUA, em fins dos anos 1950. Ela foi consolidada, como política de manipulação da questão racial, após a repressão geral e não raro massacre físico da vanguarda negra classista e revolucionária estadunidense, nos anos 1960 e 1970. Ela começou a ser introduzida no Brasil, pela Fundação Ford, entre intelectuais negros, nos anos 1980. Não é por nada que a senhora Hillary Clinton, em recente viagem ao Brasil, na única atividade não oficial, foi prestigiar essas políticas, em faculdade brasileira organizada a partir de critérios raciais. Mas qual foi e é o resultado das cotas nos EUA? No frigir dos ovos, maio século após a implantação da política cotista, a droga e, sobretudo o cárcere são a solução prioritária para a questão negra estadunidense. Os EUA, com 5% da população mundial, possui 20% dos prisioneiros. Deles, 50% negros! No país mais rico do mundo, com recursos inimagináveis, o jovem negro acaba normalmente nos braços da droga e da prisão e raramente em universidade e emprego razoável. E, apesar disto, o Estatuto da Igualdade Racial propõe nada menos que o “Brasil” esteja “no mínimo, meio século atrás dos Estados Unidos em matéria de cidadania para o povo negro”! Isso porquê, ali, o fundamental para essa política foi atingido – temos presidente, alguns generais, médicos, diplomatas, capitalistas, etc. negros! A política cotista é estratégia do grande capital pois prestigia e naturaliza a ordem capitalista; nega a luta social e de classes; procura dividir os trabalhadores e oprimidos por cor e raça; fortalece a base social da sociedade opressora. E tudo isso, em geral, sem custos para ao Estado! A política de escola pública, gratuita e de qualidade exige investimentos, que são feitos ali onde ainda domina os princípios democráticos e republicanos dos serviços públicos básicos universais. Ao contrário, a política cotista não exige que o Estado gaste um real, ao destinar 30%, 60% ou 90% das vagas das universidades públicas – dos cargos federais, postos de trabalho, etc. – para negros, índios, mulheres, etc. O Estado não gasta nada, pois são investimentos já feitos. Só redistribui os privilégios e as descriminações. E, com as políticas cotistas, além dos dividendos político-ideológicos, o Estado classista, prestigiado, vê cair a luta e a pressão popular pela extensão desses serviços. Ao igual que nos EUA. Não é por nada, portanto, que as atuais lideranças do movimento negro cotista não exigem ensino público, livre e gratuito universal. E, imaginem só a saia justa do governo, do Estado e do capital, se a juventude popular e trabalhadora, como um todo, tomasse as ruas, exigindo ensino universal, público e de qualidade! Se não obtivessem tudo que pedissem, na primeira vez, levariam certamente muito! As propostas de igualdade entre as raças,na ordem capitalista, interessam também a certo tipo de liderança negra. Defendendo as políticas do capital de racialização da sociedade, inserem-se no jogo da representação política e institucional, sendo por isso gratificada econômica, social, simbolicamente. Não creio que tenha sido estudada a gênese-consolidação dessa representação étnica nascida à sombra do Estado, fortemente impulsionado durante os governos Lula da Silva. Porém, mutatis mutandis, não parece ser processo diverso do ocorrido com as representações sindicais e populares cooptadas pelo Estado, após a enorme derrota dos trabalhadores de fins dos anos 1980. Finalmente, essas políticas interessam a segmentos médios e médio-baixos negros. É segredo de Polichinelo que as políticas de cotas privilegiam, sobretudo, os segmentos negros relativamente mais favorecidos, em detrimento dos trabalhadores e marginalizados de mesma origem. O filho do professor negro vence o filho do pedreiro negro, na disputa de uma cota. Ao igual do que ocorrem com filho do engenheiro branco, ao disputar com o do zelador de mesma cor, no vestibular. Ainda que, em bem da verdade, os filhos dos zeladores e dos pedreiros sequer sonhem com um curso universitário.
P - E quem está contra o Estatuto da Igualdade Racial? O que pensas da participação do senador Demóstenes Torres na relatoria desse projeto, após declarações preconceituosas sobre a escravidão e a opressão aos negros?
R – No Brasil, a oposição às políticas de igualdade racial tem duas grandes vertentes, essencialmente opostas [com posições intermediárias, é claro]. A vertente minoritária, com escasso espaço na mídia e no debate, é formada por um punhado de intelectuais, ativistas, sindicalistas, lideranças sociais etc. negros e brancos, de tradição republicana, democrática, socialista e revolucionária. Em geral, ela expressa, direta ou indiretamente, os interesses do mundo do trabalho e, portanto, da grande população trabalhadora e marginalizada negra, discriminada e esquecida pelas propostas retóricas de igualdade racial. Essa vertente mobiliza-se pela luta anti-racista e pelos direitos democráticos gerais, no aqui e no agora, sem qualquer exceção e privilégios. A vertente majoritária, com grande presença na mídia, formada, em especial, por políticos, jornalistas, intelectuais, etc., é impulsionada por preconceitos elitistas, racistas e corporativistas. É formada, sobretudo, por brancos e alguns oportunistas não-brancos. O senador Demóstenes Torres é representante exótico desta corrente, assim como, por exemplo, o jornalista Ali Kamel, constitui defensor refinado das mesmas visões. A primeira vertente, ao refletir, direta ou indiretamente, o mundo do trabalho e seu programa, tem consciência das consequências dramáticas das propostas de racialização da sociedade brasileira para a luta e as conquistas sociais e para a própria organização e convivência nacional. A segunda, representa, sobretudo, os setores sociais médios brancos em parte deslocados por essas políticas, em favor dos setores da classe média e médio-baixa negra, como proposto. No último caso, trata-se de defesa conservadora de privilégios das classes médias brancas, contra as políticas raciais conservadoras do grande capital, despreocupado no geral com aqueles segmentos. Trata-se de um movimento em algo semelhante à resistência final dos racistas sul-africanos, quando o capital decidira a entronização da nova classe política negro-africana. Resistência que se mantém até hoje em forma já residual, na África do Sul. Não devemos esquecer que o capital não tem cor. Historicamente, ele se serve do racismo para impor sua dominação e obter super-exploração. Porém, quando necessário, ferra sem dó os segmentos racistas.
P – O Senado retirou do projeto a obrigatoriedade do registro da cor das pessoas nos formulários de atendimento do SUS, considerado por muitos como o retrocesso maior, já que os índices referentes à saúde da população negra denunciariam fortemente a discriminação racial.
R – É enrolação estatística dizer que os negros, por serem negros, são mais desfavorecidos que os brancos, por serem brancos, por exemplo, no relativo à saúde. Comparemos os engenheiros negros e os pedreiros brancos. Nesse caso, a saúde dos brancos é certamente pior do que a dos negros. E se cotejarmos a saúde dos médicos brancos à dos médicos negros certamente ela será, no geral, idêntica! O fato de que há maioria de negros entre as classes exploradas e maior número de brancos entre os privilegiados determina diferença social que pode ser percebida artificialmente como racial, e não social. Seria estatisticamente mais interessante registrar e tornar pública a situação sócio-profissional dos atendidos pelo SUS, registrando a enorme insuficiência das classes trabalhadoras e marginalizadas, brancas, negras e pardas, quanto à saúde e à esperança de vida. Realidade não retida, como devia ser, no relativo à remuneração e à idade de aposentadoria. No essencial, as propostas da obrigação da definição da cor [no fato, da pretensa raça] quando de registros públicos procuram impor literalmente racialização artificial do país. Para essa proposta, você não seria mais simplesmente brasileiro. Mas, obrigatoriamente, brasileiro branco ou brasileiro negro. Trata-se de proposta anti-republicana, anti-democrática e profundamente racista determinar pela lei que todo o cidadão assuma uma identidade racial aleatória ou oportunista. Uma identidade racial que, no novo mundo proposto, poderia ensejar privilégios em relação ao resto da população. Esta proposta se apóia igualmente na concepção da necessidade da definição da raça quando do atendimento médico, pois, segundo ela, negros e brancos, de raças diversas, exigiriam tratamentos e procedimentos médicos diversos! Ou seja, que brancos e negros seriam biologicamente diversos, como defendiam já, os escravistas e seus ideólogos racistas, como o celerado e farsante conde de Gobineau [1816-1882]. Proposta racista, de caráter a-científico, que demonstra sua enorme obtusidade, ainda mais no Brasil, onde a auto-definição racial tende no geral sequer possui uma correspondência genética mais precisa. Os estudos científicos apontam para que, em uma enorme quantidade, os brasileiros são produtos de um forte mescla genética de população das mais diversas origens européias, americanas, africanas, asiáticas, etc. E não devemos lembrar que aquelas populações já resultavam de enormes interações genéticas.
P – Como você enxerga as lamentações do movimento negro, que definiu a aprovação dessa versão do Estatuto como traição às lutas históricas e que seria melhor brigar mais dez anos pela aprovação de versão satisfatória? Você incluiria o projeto aprovado no rol de recuos do governo Lula da Silva, em praticamente todas as pautas de caráter mais progressista?
R – Foi enorme a cooptação pelo Estado de dirigentes populares no governo Lula da Silva. Hoje, enorme parte das direções negras tem ligações diretas ou indiretas com o lulismo, com o petismo, com o Estado, com os quais não arriscam oposição e dissidências. Ao igual que as direções sindicalistas, camponesas, populares, etc. também cooptadas. Jamais vimos essas lideranças do movimento negro mobilizando-se contra a ocupação do Exército brasileiro do Haiti. Ou levantando-se contra o tratamento bestial do sistema prisional brasileiro, habitado por enorme população negra. Ou denunciando o quase total abandono das populações flageladas dos últimos tempos. Silêncio de túmulo. A reprovação do Estatuto no Senado parece ter causado apenas as assinaladas lamentações das lideranças responsáveis por sua apresentação. Ele não interpretava as necessidades da população negra pobre e explorada, que continua abandonada a sua sorte, sem conseguir construir suas verdadeiras lideranças e programas, ao igual que a maioria dos trabalhadores e oprimidos dos campos e das cidades do Brasil.
P – Acredita que se realizou um debate público a contento, com a participação efetiva da sociedade, na discussão das políticas de descriminação racial positiva, em geral, e do Estatuto, em particular?
R – Houve debate, super-estrutural e institucional: programas de rádio e de televisão; artigos e livros jornalísticos e acadêmicos; alguns editorias. Porém, o debate jamais alcançou a população nacional, a ser enquadrada pelo Estatuto, seja qual seja sua cor. Se fizéssemos um levantamento, a imensa maioria dos brasileiros não sabe o que seja o Estatuto e a quase totalidade não sabe realmente o que ele propõe. O debate jamais foi realmente enfrentado, mesmo pela esquerda, que, paradoxalmente, no passado, destacou-se pela ênfase da importância da escravidão e do racismo na sociedade de classes no Brasil. No século 20, foram efetivamente militantes marxistas e comunistas que contribuíram fortemente para que a questão negra se transformasse no Brasil em problema histórico e teórico de larga discussão – Astrogildo Pereira, Edison Carneiro, Benjamin Perét, Clóvis Moura, Décio Freitas, etc. A vanguarda da esquerda organizada aceitou as proposta de racialização da sociedade nacional sem crítica e reflexão, como parte das novas e antigas sensibilidades ambientalistas, feministas, anti-racistas, etc. Contribuíram nessa aceitação a-crítica e passiva a escassa formação política e, sobretudo, os frágeis vínculos com o operariado nacional. Operariado em franca regressão, no Brasil e no mundo, especialmente após a derrota histórica de fins de 1980, que ensejou depressão dos valores universalistas, racionalistas, socialistas, etc. Ou seja, com a crescente fragilidade do programa dos trabalhadores, fortaleceram-se a influência das propostas ideológicas e conservadoras do capital, também entre a própria esquerda, como no caso das visões raciais da sociedade. Nas razões dessa renúncia passiva ao programa socialista ajuntaríamos uma espécie de consciência culpada, por parte de militantes em geral com origem na classe média e médio-baixa branca, no contexto de escassa importância dada à questão, vista tradicionalmente como periférica aos problemas centrais da revolução. Mesmo quando seja destacada nos programas políticos. Foram também importante às pressões da juventude negra estudantil radicalizada, conquistada para essas propostos, no processo de flexibilização de organizações de esquerda, como o PSTU, de frágeis vínculos sociais e políticos com os trabalhadores.
3/7/2010 Fonte: ViaPolítica/Correio da Cidadania URL: http://www.correiocidadania.com.br
Valéria Nader é editora do Correio da Cidadania Mário Maestri, 62, é historiador marxista, tento estudado sistematicamente a escravidão colonial e da África Negra. Publicou, entre outros trabalhos, O escravismo brasileiro São Paulo, Atual]; Cisnes negros: uma história da revolta da Chibata [São Paulo, Moderna]; A linguagem escravizada, com a lingüista Florence Carboni [São Paulo, Moderna].
Um ácido e divertido retrato da mecânica da sociedade de consumo. Acompanhando a trajetória de um simples tomate, desde a plantação até ser jogado fora, o curta escancara o processo de geração de riqueza e as desigualdades que surgem no meio do caminho.
Cerca de 700 check-points fixos ou volantes e um muro de 790 quilômetros de extensão e oito metros de altura dificultam o acesso da população palestina ao trabalho, à saúde, à diversão – à liberdade, enfim –, violando o direto de ir e vir estabelecido na Declaração dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas. O isolamento exclui os palestinos da globalização e esconde do mundo os efeitos da ocupação israelense na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
A destruição de casas e o confisco de terras não param. Em 1947, a partilha definida pela ONU destinava cerca de 56,5 % da área total para os judeus e 43,5 % para os árabes (ver a cronologia “Conflito que não tem fim”, nas páginas 18 e seguintes). Hoje, os palestinos vivem em 11% dos territórios que restaram depois da Guerra dos Seis Dias, de 1967 – estes mesmos correspondentes a apenas 22% da área total. Israel ignora tanto a Resolução 242 da ONU, de 1967, que determina a devolução dos territórios anexados, quanto o Acordo de Oslo, de 1993, que prevê a total retirada do exército israelense e o fim da construção de assentamentos judaicos em terras palestinas.
Há mais de 440 mil colonos judeus em assentamentos ilegais na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. E esse número não para de crescer. Em 2005, para abrigar os colonos judeus retirados de 1.800 casas da Faixa de Gaza, o então primeiro-ministro Ariel Sharon construiu 6.500 novas casas em terras confiscadas na Cisjordânia! Com o aval dos Estados Unidos, Israel continua a ignorar as resoluções das Nações Unidas e a desrespeitar a organização. Há dois meses, o governo israelense impediu a entrada de Richard Falk no país, um relator especial enviado à região para investigar as condições de vida dos palestinos nos territórios ocupados.
Em 2007, um relatório do Conselho Econômico e Social da ONU avaliou que as restrições impostas por Israel aos palestinos são a principal causa de pobreza e crise humanitária nos territórios ocupados. “A ocupação israelense tem graves conseqüências para as condições de vida da população palestina, privada de acesso a serviços de saúde, educação, empregos, comércio e programas sociais e religiosos”, disse Amre Nour, representante do Gabinete de Comissões Regionais da ONU. O documento revelou que pelo menos 15% de todas as terras cultiváveis da Cisjordânia, principalmente as mais férteis, foram tomadas com a construção do muro erguido por Israel sob o argumento de proteger o país de atentados. E apontou ainda que a grave situação financeira dos palestinos também se deve aos US$ 60 milhões de impostos alfandegários retidos por Israel.
O número de refugiados passa de 5 milhões (ver o artigo “Os últimos dos excluídos”, nas páginas 14 e 15). É a maior população de expatriados do mundo. De cada três refugiados do planeta, um é palestino. E Israel impede o seu retorno.
Jamila, ainda menina, fugiu com os pais durante a Guerra de 1967. A família vive na Jordânia. Ela estudou, se formou, conseguiu um bom emprego, mas quis voltar à Cisjordânia. Apesar de ser palestina, conseguiu apenas um visto de visitante, por um mês. Entrou em Ramalá e não saiu mais. Fazem cinco anos. “O meu pai morreu na Jordânia e eu não pude ir ao funeral ou amparar a minha mãe. Se cruzar o check-point, eles me pegam. Nunca mais me deixarão voltar. Eu vivo com medo de ser descoberta, mas não quero ir embora. Afinal, este é meu país. Eu nasci aqui”.
Todo palestino, seja ele idoso, maduro, jovem ou criança, tem histórias para contar sobre o bloqueio israelense. Transtornos, impedimentos e constrangimentos fazem parte da rotina diária dessas pessoas. Segundo um levantamento da ONU, o índice de desemprego nos territórios ocupados oscila entre 30% e 60%, dependendo das ações impetradas por Israel. O ataque à Faixa de Gaza, por exemplo, prejudicou o turismo na Cisjordânia. Em 2008, mais de 1 milhão de pessoas visitou a Igreja da Natividade, na cidade de Belém. Com o início do bombardeio a Gaza, os turistas desapareceram, com medo. O dono do hotel onde estou hospedada disse que 40 grupos cancelaram reservas feitas para o mês de janeiro. Sem movimento, os trabalhadores do setor perderam o emprego. O efeito em cadeia atinge restaurantes, comércio, fabricantes de souvenires. Todos sofrem com a ausência dos turistas.
Buscar trabalho fora da cidade nem sempre é possível. Ir e vir pode levar horas e não há garantias de chegar ao destino. Quem mora em Belém, por exemplo, e trabalha em Ramalá leva cerca de uma hora e meia para chegar ao trabalho, em dia de sorte. E há sempre a possibilidade de a pessoa ficar retida no check-point por horas. Não há aviso ou explicação. Os soldados israelenses simplesmente têm autonomia para liberar ou bloquear a passagem. Por Jerusalém, a trajeto até Ramalá é de, no máximo, 15 minutos. Mas a maioria dos palestinos é proibida de entrar na cidade. É preciso ter permissão especial para transitar por Jerusalém. A autorização só é dada a empresários, a palestinos que tenham, também, cidadania americana e a doentes, submetidos a tratamentos especializados.
Mesmo com a permissão, o acesso é restrito, conforme está discriminado no documento. Quem for pego fora da área autorizada, será interrogado, pode ser preso e perderá definitivamente a permissão. O check-point que dá acesso a Jerusalém, perto da cidade de Beit-Jala, é o maior de todos. Lembra um posto de pedágio das grandes rodovias brasileiras. Passar pelos check-points é sempre um momento de tensão.
Os soldados apresentam-se fortemente armados, com metralhadoras e outros equipamentos. Eu, que entrei no país como turista, tenho o visto para visitar a região. Mesmo assim, cada vez que cruzo um bloqueio tenho a sensação de que estou fazendo alguma coisa errada e que vou ser flagrada. Talvez seja o ar de desconfiança com o qual os soldados olham para gente. É constrangedor. Embora sendo inocente, me sinto culpada, uma fora da lei. A passagem dos palestinos é mais complicada. Eles têm o carro revistado, passam por detector de metais. Os ônibus são esvaziados para cruzar o bloqueio. Todos os passageiros descem, apresentam suas permissões especiais, são submetidos a interrogatórios, têm a bolsa e a bagagem vistoriadas.
Os doentes não são poupados, nem dentro das ambulâncias. Todo esse procedimento pode levar duas, três horas. Os check-points existem até mesmo nos limites de diferentes partes dos territórios palestinos. Muitos abandonam o emprego e deixam de visitar familiares para evitar a tensão dos bloqueios militares. Nedaa, de 23 anos, que mora em Belém, não vê a tia e os primos há um ano. Fayrouzn pediu demissão do trabalho. Majeda passou cinco anos sem sair de Ramalá. Hanna teve um câncer de mama e precisou se submeter a quimioterapia em Israel. Ela obteve a permissão especial para ter acesso ao hospital, mas ninguém da família, nem a mãe nem o marido nem a irmã, pôde acompanhá-la. “Eu estava física e emocionalmente fragilizada e não pude contar com o apoio da minha família. Israel negou o visto. Eu tinha que ir e voltar sozinha. Chorei muitas vezes no trajeto”.
Os casos de Nedaa, Fayrouzn, Majeda e Hanna são semelhantes às histórias contadas por qualquer palestino. Não existe um só palestino que não seja afetado de alguma forma pela ocupação. Um levantamento da Organização Mundial de Saúde apurou que, de 2000 a 2007, 69 gestantes, impedidas de passar pelos check-points, deram à luz ali mesmo, na barreira do exército israelense. Dos 69 bebês, 35 morreram por conta do parto improvisado.
As situações são as mais variadas. Sireen, de 28 anos, está com casamento marcado com um rapaz nascido em Jerusalém. Ela tem acesso à cidade porque estudou nos Estados Unidos e possui cidadania norte-americana. Às vésperas do casamento, Sireen ainda não sabe se o pai poderá levá-la ao altar e se a mãe e a irmã terão permissão de Israel para assistir à cerimônia. “Vou morar em Jerusalém com o meu futuro marido. Talvez a família nunca conheça a minha casa”. Suhair, uma mulher de 40 anos, que trabalha como diretora de uma organização não-governamental para mulheres, define bem a situação: “Não há como evitar. As limitações e os impedimentos da ocupação vêm até você, por mais que você queira ignorá-los e viver o seu dia-a-dia como um cidadão comum”.
Israel mantém hoje 12 mil palestinos presos. Por aqui, não há quem não tenha sido preso ou tenha familiares detidos. Khaula foi presa três vezes: duas, em 1978, aos 15 anos, quando participava de manifestações pacíficas contra a ocupação; e a terceira em 1990, quando já era casada, mãe e não mais militava. Estava em casa, foi levada para interrogatório e a deixaram na cadeia por dois anos. “Meu marido também estava preso, acusado de fazer discursos contra a ocupação na Universidade. Ele é professor. Fiquei tão traumatizada por deixar meus filhos sem pai nem mãe, aos cuidados dos avôs, que até hoje tenho dificuldade de viajar a trabalho e deixá-los em casa. Evito sempre que posso. Mesmo sendo socióloga, recuso convites para dar palestras. Quando a viagem é inevitável, não durmo à noite, pensando neles”. O pai de Nedaa estava preso quando ela nasceu, e só a conheceu aos 6 meses de vida. A mãe também ficou alguns meses na cadeia. Quando questiono os motivos das prisões. A resposta é que nem sempre havia ou há motivos. Os israelenses acusam e prendem.
A imprensa mundial repete o discurso do governo israelense que justifica os ataques a Gaza como reação aos foguetes do Hamas, sem divulgar uma linha sequer sobre o que acontece do lado palestino do muro. Como se a verdade de Israel fosse absoluta. A ocupação na Cisjordânia continuou durante os ataques a Gaza. Enquanto 1,5 milhão de palestinos eram atacados a bomba em Gaza, outros 3 milhões de palestinos na Cisjordânia viviam a rotina do assédio moral nos check-points e da submissão ao confinamento. E outros 5 milhões de refugiados, a maioria vivendo abaixo da linha da pobreza, estavam longe, espalhados pelo mundo, e sem poder voltar. Não há uma linha sequer na imprensa sobre o prosseguimento da construção do Muro de Israel, chamado pelos palestinos de Muro da Vergonha.
Eu acompanhei uma manifestação contra o paredão no município de Al-Masara, a 15 minutos de Belém. Quinze pequenos agricultores protestavam à beira da estrada, quando soldados israelenses armados chegaram e cercaram os manifestantes com arame farpado para que eles não pudessem sair dali. Alguns foram detidos. Ayah, mulher de um deles, disse que o muro passa dentro da propriedade dela: “Israel tirou o nosso ganha-pão. Somos pequenos agricultores, vivemos da terra. Eles pegaram toda a terra boa. Não temos quem nos defenda”. Quando vi o muro pela primeira vez, levei um susto. É um paredão enorme de concreto, de oito metros de altura. As guaritas onde ficam os soldados são ainda mais altas. Do hotel, fui a pé para fotografá-lo. Cinco minutos de caminhada.
Quando cheguei perto, tive a sensação de que o muro se lançaria sobre mim. Era como se ele perdesse a condição de objeto inanimado por tudo o que representa de repressão e confinamento. Fiquei parada, ali, olhando, por uns 10 minutos, até conseguir fazer a primeira foto. Centenas de palestinos perderam e estão perdendo a propriedade por causa do muro. Vi várias casas com janelas e portas a menos de um metro do paredão. O morador olha para fora e dá de cara com o muro. Muitos estão ficando doentes de desgosto. Sawsan, uma tradutora de inglês, francês e árabe, contou que o tio teve dois enfartes depois que o muro cortou a propriedade dele no meio e tomou a reserva de pedras usadas na construção civil. “O negócio foi o sustento da família por gerações. O meu tio não aguentou; morreu de tristeza.”
Os jornais locais trazem fotos e notícias sobre a repressão contra qualquer tipo de manifestação, mesmo pacífica, contra a ocupação. Enquanto escrevo esta matéria, acesso a versão online do Ma’an. Em Jenin, um rapaz foi preso e teve o computador apreendido. Em Nablus, várias casas foram invadidas por soldados e palestinos foram levados para interrogatório. Em Belém, pelo menos dois adolescentes também foram aprisionados. Em Hebron, os israelenses mataram um motorista suspeito de estar armado. Hebron. Nessa antiga cidade, a proximidade entre colonos judeus e palestinos gera conflitos diários. Estive lá. Entrei em uma casa destruída pelo fogo. A família estava reunida quando colonos judeus chegaram pelo telhado e atearam fogo à residência. Por sorte, todos conseguiram escapar. Samer conta que esse tipo de agressão é freqüente. “Os colonos judeus querem nos amedrontar e nos expulsar de casa. Depois, eles ocupam o imóvel. Isso aconteceu com muitos vizinhos. Mas eu vou resistir”. Samer mostra as casas de palestinos recém-ocupados por colonos judeus. A dele era a próxima, colada à residência do último vizinho que havia ido embora, com medo. Samer acusa os soldados de serem coniventes. “Se as nossas crianças se defendem com pedras, são punidas. Eles nos atacam com fogo, água fervente, facas, armas e nada acontece”.
Comerciantes palestinos também reclamam das agressões dos colonos. O tradicional comércio de Hebron fica em ruas estreitas. No vão que separa um lado do outro das vielas, existe uma tela de arame que cobre toda a extensão do trajeto. As telas estão cheias de garrafas plásticas, papel higiênico, latas. “Tivemos que nos juntar e colocar o arame para nos proteger do lixo jogado pelos judeus. Eles fazem isso para gente ir embora e deixar tudo pra eles”. Esses colonos agressores lembram os integrantes dos grupos Irgun e Stern, terroristas que assustavam os palestinos nos anos de 1930, 1940, quando os sionistas começaram a chegar em massa na região. Próximo ao final do Mandato Britânico, em 1948, as ações terroristas recrudesceram. E o Irgun, o Stern, a Haganah e outros grupos armados se uniram para constituir o exército israelense que conhecemos hoje.
Adriana Mabilia é jornalista. E visitou a Cisjordânia no período da ofensiva israelense a Gaza
Diante dos fatos ocorridos nos últimos dias quando o exército do Estado de Israel atacou um conjunto de navios de ajuda humanitária (leia-se navios que carregavam, além de ativistas de diversos países, inclusive um prêmio nobel da paz, alimentos, medicamentos, cimento, kits de montagem de casas, roupas, dentre outros bens necessários) e também diante da inoperância internacional através das Nações Unidas, resolvi postar nessse Blog uma entrevista com o escritos estadunidense Ralph Schoenman, exímio pesquisador do sionismo e da causa palestina.
Espero que após a leitura da entrevista, diante das inúmeras dúvidas que surgirão, o leitor possa ter a curiosidade de pesquisar sobre o assunto. Desde já afirmo que possuo farto material sobre o tema e o disponibilizarei aos interessados.
O escritor, de origem judaica, pede o fim de toda a ajuda ao Estado de Israel e acusa: “A liderança sionista colaborou com os piores perseguidores dos judeus durante o século XIX e o século XX, incluindo os nazistas”.
Ralph Schoenman foi diretor-executivo da Fundação pela Paz Bertrand Russel, papel através do qual conduziu negociações com inúmeros chefes de Estado. Com seu trabalho assegurou a libertação de prisioneiros políticos em muitos países e fundou o Tribunal Internacional dos Crimes de Guerra dos Estados Unidos na Indochina, organização da qual foi secretário-geral. Velho militante, fundou o Comitê dos 100, que organizou a desobediência civil massiva contra as armas nucleares e as bases americanas na Grã-Bretanha. Foi também fundador e diretor da Campanha de Solidariedade ao Vietnã e diretor do Comitê “Quem Matou Kennedy?” Tem sido líder do Comitê por Liberdade Artística e Intelectual no Irã e co-diretor do Comitê em Defesa dos Povos Palestino e Libanês e do Movimento de Solidariedade de Trabalhadores e Artistas Americanos. Atualmente é diretor executivo da Campanha Palestina, que clama pelo fim de toda ajuda a Israel e por uma Palestina laica e democrática.
T&D – Em seu livro The Hidden History of Zionism (A História Oculta do Sionismo), você descreve quatro mitos sobre a história do sionismo. Nós gostaríamos que você explicasse um pouco seu livro.
Schoenman – O meu trabalho na Fundação Bertrand Russel foi importante por me dar a chance de documentar fatos da formação do Estado sionista de Israel. Em cursos e palestras que proferi em mais de uma centena de universidades americanas e européias, pude constatar que as pessoas não sabiam, não tinham conhecimento da história do movimento sionista, dos seus objetivos e de vários fatos. Nessas ocasiões deparei com concepções equivocadas sobre a natureza do Estado de Israel e foi isso que impulsionou o meu trabalho de escrever o livro, The Hidden History of Zionism, no qual eu abordo o que chamo de os quatro mitos que têm moldado a consciência nos Estados Unidos e na Europa sobre o sionismo e o Estado de Israel.
T & D - Quais são esses quatro mitos?
Schoenman – O primeiro mito é o da “terra sem povo para um povo sem terra“. Os primeiros teóricos sionistas, como Theodor Herzl e outros, apresentaram para o mundo a Palestina como uma terra vazia, visitada ocasionalmente por beduínos nômades; simplesmente, uma terra vazia, esperando para ser tomada, ocupada. E os judeus eram um povo sem terra, que se originaram historicamente na Palestina; portanto, os judeus deveriam ocupar essa terra. Desde o começo, os primeiros núcleos de colonos, promovidos pelo movimento sionista, foram caracterizados pela remoção, pela expulsão armada da população palestina nativa do local onde essa população vivia e trabalhava.
T & D - Quais os outros três mitos?
Schoenman – O segundo mito que o livro pretende discutir é o mito da democracia israelense. A propaganda sionista, desde o início da formação do Estado de Israel, tem insistido em caracterizar Israel como um Estado democrático no estilo ocidental, cercado por países árabes feudais, atrasados e autoritários. Apresentam então Israel como um bastião dos direitos democráticos no Oriente Médio. Nada poderia estar mais longe da verdade.
Entre a divisão da Palestina e a formação do Estado de Israel, num período de seis meses, brigadas armadas israelenses ocuparam 75% da terra palestina e expulsaram mais de 800 mil palestinos, de um total de 950 mil. Eles os expulsaram através de sucessivos massacres. Várias cidades foram arrasadas, forçando assim a população palestina a refugiar-se nos países vizinhos, em campos de concentração e de refugiados. Naquele tempo, no período da formação do Estado de Israel, havia 475 cidades e vilas palestinas, que caíram sob o controle israelita. Dessas 475 cidades e vilas, 385 foram simplesmente arrasadas, deixadas em escombros, no chão, apagadas do mapa. Nas 90 cidades e vilas remanescentes, os judeus confiscaram toda a terra, sem nenhuma indenização.
Hoje, o Estado de Israel e seus organismos governamentais, tais como o da Organização da Terra, controlam cerca de 95% da terra palestina. Pela legislação existente em Israel, é necessário provar, por critérios religiosos ortodoxos judeus, a ascendência judaica por linhagem materna até a quarta geração, para poder possuir terra, trabalhar na terra ou mesmo sublocar terra. Como eu digo sempre, nas palestras em que apresento meus pontos de vista, em qualquer país do mundo (seja Brasil, EUA, onde for), se fosse necessário preencher requisitos parecidos com esses, ninguém duvidaria do caráter racista de tal Estado; seria notória a existência de um regime fascista.
A Suprema Corte em Israel tem ratificado que Israel é o Estado do povo judeu e que, para participar da vida política israelense, organizar um partido político, por exemplo, ou ter uma organização política, ou mesmo um clube público, é necessário afirmar que se aceita o caráter exclusivamente judeu do Estado de Israel. É um Estado colonial racista, no qual os direitos são limitados à população colonizadora, na base de critérios raciais.
O terceiro mito do qual falo em meu livro é aquele criado para justificativa da política de Israel, que se diz baseada em critérios de segurança nacional. A verdade é que Israel é a quarta potência militar do mundo. Desde 1948, os EUA deram a Israel US$ 92 bilhões em ajuda direta. A magnitude dessa soma pode ser avaliada quando observamos que a população israelense variou entre 2 a 3 milhões nesse período. Se o governo americano dá algum dinheiro para países como Taiwan, Brasil, Argentina, e a aplicação desse dinheiro tiver alguma relação com fins militares, a condição é que as compras desse material têm que ser feitas dos EUA. Mas há uma exceção: as compras de material bélico podem ser feitas também de Israel. Israel é tratado pelos EUA como parte de seu território, em todos os assuntos comerciais.
O que motivaria uma potência imperialista a subsidiar tanto um Estado colonial? A verdade é que Israel não pode mesmo existir sem a ajuda americana, sem os US$ 10 bilhões anuais. Israel é, portanto, a extensão do imperialismo na região do Oriente Médio. Israel é o instrumento através do qual a revolução árabe é mantida sob controle. É, portanto, o instrumento através do qual as ricas reservas do Oriente Médio são mantidas sob o controle do imperialismo americano. É também um meio através do qual os regimes sanguinários dos países árabes são mantidos no governo, graças ao clima de tensão gerado por uma possível invasão israelense. O quarto mito a que me refiro no livro, que tem influenciado a opinião pública mundial, refere-se à origem do sionismo, à origem do Estado de Israel.
O sionismo tem sido apresentado como o legado moral do holocausto, das vítimas do holocausto. O movimento sionista tem como que se “alimentado” da mortandade coletiva dos 6 milhões de vítimas da exterminação nazista na Europa. Esta é uma terrível e selvagem ironia. A verdade é bem o oposto disso. A liderança sionista colaborou com os piores perseguidores dos judeus durante o século XIX e o século XX, incluindo os nazistas.
Quando alguém tenta explicar isso para as pessoas, elas geralmente ficam chocadas, e perguntam: o que poderia motivar tal colaboração? Os judeus foram perseguidos e oprimidos por séculos na Europa e, como todo povo oprimido, foram empurrados, impelidos a desafiar o establishment, o statu quo. Os judeus eram críticos, eram dissidentes. Eles foram impelidos a questionar a ordem que os perseguia. Então, o melhor das mentes da inteligência judia foi impelido para movimentos que lutavam por mudanças sociais, ameaçando os governos estabelecidos.
Os sionistas exploraram esse fato a ponto de dizer para vários governos reacionários que o movimento sionista iria ajudá-los a remover esses judeus de seus países. O movimento sionista fez o mesmo apelo ao kaiser na Alemanha, obtendo dele dinheiro e armas. Eles se reivindicavam como a melhor garantia dos interesses imperialistas no Oriente Médio, inclusive para os fascistas e os nazistas.
T & D - Como se deu essa colaboração dos sionistas com os nazistas?
Schoenman – Em 1941, o partido político de Itzhak Shamir (conhecido hoje como Likud) concluiu um pacto militar com o 3º Reich alemão. O acordo consistia em lutar ao lado dos nazistas e fundar um Estado autoritário colonial, sob a direção do 3º Reich. Outro aspecto da colaboração entre os sionistas e governos e Estados perseguidores dos judeus é o fato de que o movimento sionista lutou ativamente para mudar as leis de imigração nos EUA, na Inglaterra e em outros países, tornando mais difícil a emigração de judeus perseguidos na Europa para esses países.
Os sionistas sabiam que, podendo, os judeus perseguidos na Europa tentariam emigrar para os EUA, para a Grã- Bretanha, para o Canadá. Eles não eram sionistas, não tinham interesse em emigrar para uma terra remota como a Palestina. Em 1944, o movimento sionista refez um novo acordo com Adolf Eichmann. David Ben Gurion, do movimento sionista, mandou um enviado, de nome Rudolph Kastner, para se encontrar com Eichmann na Hungria e concluir um acordo pelo qual os sionistas concordaram em manter silêncio sobre os planos de exterminação de 800 mil judeus húngaros e mesmo evitar resistências, em troca de ter 600 líderes sionistas libertados do controle nazista e enviados para a Palestina. Portanto, o mito de que o sionismo e o Estado de Israel são o legado moral do holocausto tem um particular aspecto irônico, porque o que o movimento sionista fez quando os judeus na Europa tinham a sua existência ameaçada foi fazer acordos, e colaborar com os nazistas.
Fonte: Revista Teoria & Debate (Fundação Perseu Abramo, vinculada ao PT) nº 5 – janeiro/fevereiro/março de 1989, por Stylianos Tsirakis
Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de um modo ou de muitos todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender-e-ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias misturamos a vida com a educação. Com uma ou com várias: educação ? Educações. E já que pelo menos por isso sempre achamos que temos alguma coisa a dizer sobre a educação que nos invade a vida, por que não começar a pensar sobre ela com o que uns índios uma vez escreveram ?
Há muitos anos nos Estados Unidos, Virgínia e Maryland assinaram um tratado de paz com os índios das Seis Nações. Ora, como as promessas e os símbolos da educação sempre foram muito adequados a momentos solenes como aquele, logo depois os seus governantes mandaram cartas aos índios para que enviassem alguns de seus jovens às escolas dos brancos. Os chefes responderam agradecendo e recusando. A carta acabou conhecida porque alguns anos mais tarde Benjamin Franklin adotou o costume de divulgá-la aqui e ali. Eis o trecho que nos interessa:
"... Nós estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração. Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a vossa idéia de educação não é a mesma que a nossa.... Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltavam para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros.Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-la, para mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores de Virgínia que nos enviem alguns dos seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens."
De tudo o que se discute hoje sobre a educação, algumas das questões entre as mais importantes estão escritas nesta carta de índios. Não há uma forma única nem um único modelo de educação; a escola não é o único lugar onde ela acontece e talvez nem seja o melhor; o ensino escolar não é a sua única prática e o professor profissional não é o seu único praticante.
Em mundos diversos a educação existe diferente: em pequenas sociedades tribais de povos caçadores, agricultores ou pastores nômades; em sociedades camponesas, em países desenvolvidos e industrializados; em mundos sociais sem classes, de classes, com este ou aquele tipo de conflito entre as suas classes; em tipos de sociedades e culturas sem Estado, com um Estado em formação ou com ele consolidado entre e sobre as pessoas.
Existe a educação de cada categoria de sujeitos de um povo; ela existe em cada povo, ou entre povos que se encontram. Existe entre povos que submetem e dominam outros povos, usando a educação como um recurso a mais de sua dominância. Da família à comunidade, a educação existe difusa em todos os mundos sociais, entre as incontáveis práticas dos mistérios do aprender; primeiro sem classes de alunos, sem livros e sem professores especialistas; mais adiante com escolas, salas, professores e métodos pedagógicos.
A educação pode existir livre e, entre todos, pode ser uma das maneiras que as pessoas criam para tornar comum, como saber, como idéia, como crença, aquilo que é comunitário como bem, como trabalho ou como vida. Ela pode existir imposta por um sistema centralizado de poder, que usa o saber e o controle sobre o saber como armas que reforçam a desigualdade entre os homens, na divisão dos bens, do trabalho, dos direitos e dos símbolos.
A educação é, como outras, uma fração do modo de vida dos grupos sociais que a criam e recriam, entre tantas outras invenções de sua cultura, em sua sociedade. Formas de educação que produzem e praticam, para que elas reproduzam, entre todos os que ensinam-e-aprendem, o saber que atravessa as palavras da tribo, os códigos sociais de conduta, as regras do trabalho, os segredos da arte ou da religião, do artesanato ou da tecnologia que qualquer povo precisa para reinventar, todos os dias, a vida do grupo e a de cada um de seus sujeitos, através de trocas sem fim com a natureza e entre os homens, trocas que existem dentro do mundo social onde a própria educação habita, e desde onde ajuda a explicar - às vezes a ocultar, às vezes a inculcar - de geração em geração, a necessidade da existência de sua ordem.
Por isso mesmo - e os índios sabiam - a educação do colonizador, que contém o saber de seu modo de vida e ajuda a confirmar a aparente legalidade de seus atos de domínio, na verdade não serve para ser a educação do colonizado. Não serve e existe contra uma educação que ele, não obstante dominado, também possui como um dos seus recursos, em seu mundo, dentro de sua cultura.
Assim, quando são necessários guerreiros ou burocratas, a educação é um dos meios de que os homens lançam mão para criar guerreiros ou burocratas. Ela ajuda a pensar tipos de homens. Mais do que isso, ela ajuda a criá-los, através de passar de uns para os outros o saber que os constitui e legitima. Mais ainda, a educação participa do processo de produção de crenças e idéias, de qualificações e especialidades que envolvem as trocas de símbolos, bens e poderes que, em conjunto, constróem tipos de sociedades. E esta é a sua força.
No entanto, pensando às vezes que age por si próprio, livre e em nome de todos, o educador imagina que serve ao saber e a quem ensina mas, na verdade, ele pode estar servindo a quem o constituiu professor, a fim de usá-lo, e ao seu trabalho, para os usos escusos que ocultam também na educação - nas suas agências, suas práticas e nas idéias que ela professa - interesses políticos impostos sobre ela e, através de seu exercício, à sociedade que habita. E esta é a sua fraqueza.
Aqui e ali será preciso voltar a estas idéias, e elas podem ser como que um roteiro daqui para a frente. A Educação existe no imaginário das pessoas e na ideologia dos grupos sociais e, ali, sempre se espera, de dentro, ou sempre se diz para fora, que a sua missão e transformar sujeitos e mundos em alguma coisa melhor, de acordo com as imagens que se tem de uns e outros: "... e deles faremos homens". Mas, na prática, a mesma educação que ensina pode deseducar, e pode correr o risco de fazer o contrário do que pensa que faz, ou do que inventa que pode fazer: "... eles eram, portanto, totalmente inúteis"