sábado, 14 de janeiro de 2012

Moradores de rua, reflexo da desigualdade social


“Parabéns pela cidade limpa”: higienismo, fascismo social e limpeza da população em situação de rua





por Rose Barboza, publicada na Revista Caros Amigos: http://carosamigos.terra.com.br/


Toda a arrogância e soberba do fascismo social brasileiro, paulistano e rico vieram à tona na última semana: sem rodeios, sem máscaras, alto e bom som: “Quer mais degradação [ambiental] do que o emporcalhamento da Biblioteca Municipal Mário de Andrade? Ou gente que dorme, urina e lava roupa em plena praça Ramos de Azevedo, nas barbas do Carlos Gomes?”, esta frase fascista, não foi pronunciada em embate público acalorado entre cidadãos ou em recinto fechado, reduto dos responsáveis pelo apartheid social da classe A nos Jardins da capital. Antes, foi uma frase escrita ipsis literis por um empresário rico e influente no editorial de um jornal de circulação nacional no Brasil.

O empresário, Antônio Ermírio de Moraes, o jornal, a Folha de S. Paulo e a louvação era à “Lei Cidade Limpa” do atual governo tucano. O empresário inicia seu texto elogiando o governo municipal pela implementação de uma lei que “visa disciplinar o uso de anúncios”. Contudo, isso é apenas a primeira linha do artigo, nas seguintes, o Sr. Antônio Ermírio mostra o intuito central do editorial: expressar seu “inconformismo com a inaceitável sujeirada que tomou conta da cidade”. E até aí eu também concordaria, se não fosse o entendimento equivocado e preconceituoso do empresário quanto ao que “suja” a cidade.

Para o empresário higienista, as pessoas não sujam a cidade poluindo o ar com substâncias cancerígenas como a Votorantim Cimentos, mas poluem e “emporcalham” (ele utiliza esse termo) a cidade com sua presença nos logradouros públicos e em sua míope e eugenista visão, nada mais prático que utilizar os “dispositivos” da lei em vigor para “limpar” a cidade dos indesejáveis moradores de rua.

Ora bem, não somos ingênuos e sabemos que tais concepções não são nem recentes nem incomuns numa cidade onde os fossos sociais são responsáveis por conceitos como o de “brasilinização” (criado por Ulrich Beck), que se refere justamente às diferenças abissais que, o capitalismo organizado, aprofunda cada vez mais nas relações que situam em lados opostos os 20% mais pobres que ganham 2,4% da renda brasileira e os outros 20% mais ricos que concentram 63,2% da mesma renda nacional. Economicamente isso fica bastante explícito em termos de injustiça social: provavelmente o grupo que “emporcalha” a cidade não chegue a fazer parte da média de cerca de 40 milhões de pessoas que vivem com menos de US$2 ao dia e dos 14,6 milhões que vivem com menos de US$1 ao dia.

Evidente que como principal figurão de um dos 10 maiores conglomerados globais do setor de cimentos, o empresário editorialista não vê problema em chamar de “sujeira urbana”, ao lado de placas publicitárias, lixo e urina, a população que paga na pele, da maneira mais violenta e visível, as conseqüências da escandalosa e desigual riqueza que ele, e seu grupo familiar, concentram.

Ou seja, para o rico e poderoso empresário, o que o incomoda “há anos” não é sobrevoar habitações precárias de pessoas que são amontoadas em qualquer lugar da cidade e são tratadas como animais, sofrendo toda a sorte de humilhações cotidianas, chegando ao cúmulo do extermínio físico, como na chacina perpetrada em agosto de 2004 com 8 vítimas fatais, que continua impune. Não o incomoda tampouco, que sua vasta e diversificada fortuna sirva para a consolidação do fascismo social na cidade de São Paulo e divida a cartografia urbana em zonas praticamente estanques, se não fosse o uso instrumental da pobreza. O que realmente incomoda o grande empresário é que pessoas estejam ali, a “banhar-se”, nas barbas do Carlos Gomes, provocando sujeira numa cidade, que se não bastasse o campo minado em termos de desigualdade social, ainda deve chamar para si, de acordo, com o último e prepotente parágrafo do Sr. Antônio Ermírio, a hegemonia econômica do País.



O fascismo social e higienista na prática: limpando a cidade e removendo indesejáveis


Aparato do Estado a serviço da "limpeza" desejada pela alta burguesia paulistana



De acordo com o dicionário Aurélio, que não tem um verbete para a palavra higienismo, limpeza, significa desde o que tem “qualidade de limpo e de asseado”, passando pela idéia de “correção, decência, pureza” até mostrar que a palavra poderia ser sinônimo de “desaparecimento total de qualquer coisa”, até mesmo uma “coisa bem-feita, bem-acabada, caprichada”. Sendo assim, o verbete limpeza cumpre também o papel da omissão de higienismo, uma vez que tal palavra, na bibliografia especializada poderia ser uma forma de “correção” em busca de um ideal de “pureza” que fizesse “desaparecer completamente” a característica de indesejáveis em certos indivíduos. No começo do século XX, por exemplo, a palavra higienismo acompanhava o projeto eugenista de certos sanitaristas que pretendiam trabalhar na criação de uma “raça pura”, de indivíduos bem-dotados que favorecessem os fatores sociais da tendência seletiva, ou em outras palavras, eugenia aqui era algo como vamos ajudar a “que vença o mais forte”.

Dessa forma, desde cedo, o “mais forte” já contava com uma ajudinha social, especializada em construir uma idéia moral de força e virtude ligada à limpeza, à ordem e outras palavras, que faziam parte de qualquer discurso nazista ou fascista que se julgasse sério. Assim, o biológico, foi sendo interpretado social e politicamente, com explícitos interesses econômicos. Herança do colonialismo, o discurso da ordem e da higiene foi se arrogando o poder de legislar sobre todos os mundos da vida, foi compartimentalizando compreensões acerca de nós mesmos, cerceando liberdades, incutindo a idéia de inferioridade em milhões e milhões de pessoas em todo o mundo.

Discurso poderoso que rapidamente percebeu o trunfo que tinha nas mãos: a padronização dos comportamentos através do mundo, o jugo do “homem branco” civilizador e da religião moral atuaram como armas poderosas a favor de uma conjuntura onde o sistema econômico emergia como a faceta mais importante contra o inferior que era preso, segregado e “limpado” dos espaços públicos. Esse indivíduo inferior, ainda hoje, é “encarnado”, pela moral hegemônica, nas pessoas negras, mulheres, pobres, indígenas, deficientes, loucas, moradoras de rua, gays, lésbicas e todas aquelas que não se enquadram às imposições do sistema econômico e, por isso, são designados como descartáveis.

Os instrumentos que utilizaram foram vários para sedimentar esse poderio, dos discursos higienistas, passando pelos campos de concentração europeus e as guerras de libertação nacional na África, lançou-se mão da violência, não apenas simbólica, mas que em muitos casos, culminava em extermínio total.

E aí é fácil entender porque atualmente limpeza e extermínio andam de mãos dadas. Vamos voltar um pouquinho, para entender como isso acontece hoje em São Paulo: já faz algum tempo, um sociólogo português, também bastante conhecido no Brasil, Boaventura de Sousa Santos, cunhou um termo, para representar, o que para ele contribuía sobremaneira para o crescimento estrutural da exclusão social: o fascismo social, que ele acabou definindo como diferente daquele fascismo dos anos trinta e quarenta, já que não acontece mais como um regime político mas sim sob a forma de um regime social. Para ele, o fascismo social também não sacrifica a democracia perante as exigências do capitalismo, mas fomenta esta última, até que não seja necessário, nem conveniente, sacrificá-la para promover o capitalismo.

Assim, nessa democracia de baixa intensidade, onde é possível aliar e utilizar a implementação de uma lei de limpeza urbana para aplicá-la a seres humanos é possível vermos (e lermos) opiniões, que não diferentes dos idos anos trinta, buscam arregimentar por meio da perspectiva econômica e da limpeza-extermínio (a xenófoba conclamação da cidade paulistana como responsável pelo progresso econômico e social do país) a simpatia daqueles que acriticamente se julgam superiores a tantos outros que sofrem as mazelas das desigualdades incansavelmente construídas por ultraempresários.

Para Boaventura, o fascismo social na verdade acontece na forma de vários fascismos, não apenas coordenados pelo Estado (fascismo estatal) mas também pelo próprio sistema financeiro (o fascismo financeiro dos grandes grupos econômicos), pelo fascismo da insegurança (podíamos pensar nas estratégias do governo americano que congrega em diversos níveis, várias formas de fascismo social, mas também nas medidas truculentas e racistas do governo carioca no Complexo do Alemão), o fascismo territorial (em São Paulo podemos ver como a segregação espacial é gritante e pouco democrática, basta olharmos para os condomínios fechados e as vilas de casas residenciais do Itaim e da Vila Olímpia cercada de seguranças particulares e vigilância eletrônica 24 horas por dia).

Contudo, o texto do Sr. António Ermírio de Moraes congrega, além de aspectos do fascismo territorial (quem pode estar na Praça Ramos de Azevedo), econômico e estatal, um novo aspecto: o fascismo-higienista.

A nova fase de aprofundamento da exclusão social, inaugurada pelo editorial do Sr. António Ermírio não diz respeito mais ao espólio do capital, uma vez, que como vimos essa população não tem acesso nem ao dólar diário para a sobrevivência, quanto mais a um leito do Hospital da Beneficência Portuguesa, mas também não diz respeito somente à segregação espacial, ao fascismo da insegurança incutida sabidamente na cabeça dos cidadãos, que já viam os moradores de rua como uma população “perigosa”.

O novo aspecto tratado no artigo que chamo de fascismo higienista traz consigo a idéia de que a ordem e a limpeza devem prevalecer para além da vida humana, fator de dignidade da população que vive nas ruas. Ao negar a essa população não só a possibilidade de ser reconhecida por suas expectativas de participar do contrato social, o fascismo higienista lhes nega a própria humanidade, fazendo com que assim, esta população possa estar a mercê da limpeza urbana, recolhidos pela Vega Sopave e despejados num lixão ou num aterro sanitário qualquer, apenas porque sua imagem não incomoda por estarem reivindicando direitos, justiça social ou lutando contra a iniqüidade e pela parte que lhes é devida no contrato social, mas apenas por estarem “sujando” a cidade com sua presença maltrapilha.

Constatação cruel e dolorosa, esse fascismo higienista, que trata agora como lixo quem foi excluído das promessas da modernidade neoliberal é uma forma de negar humanidade a quem criativamente se reinventa nas ruas colocando em marcha sonhos e expectativas apesar de todas as evidências contrárias.

Mas, talvez, essa constatação não seja dolorosa apenas para quem conhece a população de rua e sabe o quanto que lhe é devido nessa partilha indecorosa do bolo capitalista. Talvez mais dolorosa deva ser a constatação para o empresário, poderoso e fascista que toma consciência de sua própria inumanidade: ao ver-se confrontado com pessoas, que apesar de terem sido espoliadas de tudo, têm a dignidade de se levantarem e se limparem num gesto heróico de dignidade ele possa perceber quão ele é mesquinho e inumano. Uma vez que, confortavelmente em uma de suas mansões, se dá ao luxo de escrever que a cidade deve se livrar de pessoas, como quem se livra de cartazes.

Apesar dessas formas agressivas e estruturadas do fascismo, sabemos que o lugar onde o nosso caminhar encontrará liberdade, justiça e democracia não existe e que somos nós que teremos que criar. A população de rua, empresário, está à porta, atenta e organizada. Será necessário mais que o extermínio e a morte para calar esses milhões de mulheres e homens que teimam em dizer: estamos aqui, somos teu fruto! E escancaram que ou as coisas mudam ou será necessário mais que água, limpeza e morte para manter o sistema que o senhor diária e desesperadamente luta para remendar, com idéias de ordem e bajulações duplamente intencionadas, porque ruindo ele já está.

Rose Barboza é psicóloga e mestranda em Sociologia na Universidade de Coimbra/Portugal

domingo, 27 de novembro de 2011

Mais uma ação "humanitária" imperialista


Navio de guerra estadunidense na costa Síria

Por Thierry Meyssan
As operações contra a Líbia e a Síria têm atores e estratégias comuns. Porém os resultados são muito diferentes, já que não há comparação possível entre ambos os Estados.

Ainda que o intento de derrubar o governo sírio tenha muitos pontos de semelhança com a manobra contra a Líbia, os resultados são muito diferentes devido a particularidades sociais e políticas dos dois países. O projeto que pretendia acabar simultaneamente com esses dois Estados já havia sido enunciado desde 6 de maio de 2002 por John Bolton, então subsecretário de Estado da administração Bush. Posto em prática, nove anos mais tarde, pela administração Obama, está enfrentando numerosos problemas.
Exatamente como na Líbia, o plano inicial contra a Síria consistia em um golpe de Estado militar, no qual rapidamente se mostrou impossível conseguir encontrar oficiais necessários que pudessem cumprir esse papel. Segundo informações que temos recebido, também estava prevista a aplicação de um plano idêntico no Líbano. Na Líbia, a existência do complô se soube antes do tempo, e o coronel Kadhafi acertou em prender o coronel Abdallah Gehani. Não restou outro remédio que submeter o plano original a uma revisão em meio do inesperado contexto da ”primavera árabe”.

A ação militar
A idéia principal, em Síria, era provocar desordens em uma zona bem delimitada e proclamar ali um Emirado Islâmico que pudesse servir de base para desmantelar o país. Foi escolhido o distrito de Daraa porque se encontrava na fronteira com a Jordânia e com Golan, território sírio ocupado por Israel, que, por sua vez, facilitou o envio de todo tipo de ajuda material aos separatistas.
Orquestrou-se ali um incidente artificial mediante o uso de estudantes secundaristas que realizaram uma série de provocações, tática que funcionou mais que satisfatoriamente devido à brutalidade e estupidez do governador e do chefe de polícia local. Quando começaram as manifestações, franco atiradores localizados nos telhados dispararam a esmo contra a multidão e contra as forças da ordem. Cenário idêntico àquele que se aplicou em Benghazi para suscitar revolta.
Os planos incluíam mais enfrentamentos, sempre em distritos sírios fronteiriços, como meio de garantir a retaguarda, primeiramente na fronteira norte do Líbano e posteriormente na fronteira com a Turquia.
A missão dos combates estava nas mãos de unidades pequenas, em torno de uns 40 homens, onde se mesclavam indivíduos recrutados localmente com uma direção conformada por mercenários estrangeiros proveniente das redes do príncipe saudita Bandar bem Sultan. O próprio Bandar esteve na Jordânia para supervisionar o começo das operações, em contato com oficiais da CIA e da MOSSAD.
Porém, a Síria não é o mesmo que a Líbia: o resultado tem sido contrário ao esperado. Líbia é um Estado criado pelas potências coloniais que uniram pela força as regiões de Tripolitania, Cirenaica e Fezzan. Porém, a Síria é uma nação histórica, que as mesmas potências coloniais reduziram a sua mais simples expressão.  Na Síria, existem forças unificadoras que esperam reconstruir a Grande Síria, que incluiria a atual Jordânia, a Palestina ocupada, o Líbano, Chipre e uma parte do Iraque. A população do país que atualmente conhecemos como Síria se opõe, portanto, de forma espontânea, aos projetos que querem dividir a nação.
Por outro lado, também é possível comparar a autoridade do coronel Kadhafi e de Hafez El Assad – pai de Bachar El-Assad. Os dois chegaram ao poder na mesma época e combinaram inteligência e brutalidade para imporem-se. Ao contrário do atual presidente sírio que não tomou o poder. Nem sequer esperava herdá-lo. Aceitou a presidência porque seu pai havia falecido e por saber que unicamente sua legitimidade familiar poderia evitar uma guerra de sucessão entre os generais de seu pai. O exército sírio foi buscá-lo em Londres, onde Bachar exercia sua profissão de oftalmologista. Mas foi o povo quem o consolidou no poder.
Bachar AL-Assad é, sem dúvida, o líder político mais popular do Médio Oriente.  Há dois meses, era também o único que não utilizava escoltas e não tinha o menor problema em misturar-se com multidões.
A operação militar que tenta desestabilizar a Síria e a campanha de propaganda desatada simultaneamente contra esse país foram organizadas por uma coalizão de Estados, no qual os EUA exercem o papel de coordenador, exatamente da mesma forma em que a OTAN atua como coordenador dos Estados – membros e não membros da aliança do atlântico – que participam na campanha militar contra a Líbia.
Como já havíamos dito anteriormente, os mercenários foram por conta do príncipe saudita Bandar, que teve, inclusive, que fazer um giro internacional até o Paquistão e Malásia para reforçar seu exército pessoal, mobilizado desde Manama até Trípoli. Podemos citar, também, como exemplo, a instalação, nos escritórios do ministro libanês de Comunicação, de um centro de telecomunicação criado especialmente para este assunto.
Longe de lograr indispor a população síria contra o “regime”, o banho de sangue deu lugar ao surgimento de um movimento de unidade nacional ao redor do presidente Bachar El-Assad.  Conscientes de que existe a intenção de arrastá-los a uma guerra civil, os sírios conformaram um bloco. As manifestações antigovernamentais conseguiram reunir um total de 150.000 a 200.000 pessoas, num país que conta com 22 milhões de habitantes. Entretanto, as manifestações a favor do governo estão reunindo multidões nunca vistas anteriormente na Síria.
Ante os acontecimentos provocados, as autoridades demonstraram sangue frio. O presidente deu início às reformas pretendidas e negociadas com setores importantes da sociedade, reformas que a própria população havia freiado sua implementação até esse momento, por temor de uma ocidentalização da sociedade árabe.
O Partido Bhaas aceitou o multipartidarismo para evitar cair no arcaísmo. Contrariamente ao que afirmam os meios de comunicação do ocidente e Arábia Saudita, o exército sírio não reprimiu os manifestantes, mas combateu os grupos armados. Por desgraça, seus oficiais superiores não conseguiram mostrar tato com os civis presos entre o tiroteio.

A guerra econômica
Produziu-se uma inflexão na estratégia comum do Ocidente e Arábia Saudita. Ao dar-se conta de que a ação militar não lograria afundar a Síria no caos no curto prazo, Washington decidiu atuar sobre a sociedade a médio prazo. A idéia é trabalhar a recente classe média, formada pela política econômica, e utilizá-la contra o governo.  Para isso, é preciso provocar uma derrocada econômica a nível nacional.
O principal recurso da Síria é o petróleo, ainda que sua produção esteja bem abaixo do volume apresentado por seus vizinhos. Ainda assim, para comercializar esse petróleo, Síria necessita ter nos bancos ocidentais os chamado “assets” (bens ou valores mobiliários), que sirvam como garantia durante as transações.  Basta congelar esses “assets” para sufocar o país. Para tanto, resulta importante e conveniente manchar o máximo possível a imagem da Síria para que a opinião pública ocidental aceite a adoção de “sanções contra o regime”.
Para o congelamento dos bens e valores de um país é necessário, em princípio, uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, que, neste caso, é algo altamente improvável. China, que no caso da Líbia renunciou “voluntariamente” seu direito de veto, sob pena de perder todo acesso ao petróleo da Arábia Saudita, provavelmente terá que se dobrar novamente. Porém, a Rússia poderá recorrer ao veto, já que, se não o fizer, perderia sua base naval no Mediterrâneo e sua Frota do Mar Negro se esconderia por trás dos Dardanelos.
Para intimidar, o Pentágono enviou ao Mar Negro o cruzeiro USS Monterrey, como estabelecendo que em qualquer caso, as ambições navais da Rússia são irrealistas. Em todo caso, a administração Obama pode ressuscitar a Syrian Accountablity Act de 2003 para congelar os fundos sírios sem esperar pela adoção de uma resolução na ONU, nem uma votação no Congresso estadunidense. Como já demonstrou a história recente, especialmente nos casos de Cuba e do Irã, Washington pode convencer facilmente seus aliados europeus para que apóiem as sanções que os EUA adotam de forma unilateral.
É por isso que a verdadeira batalha se deslocou, atualmente, para os meios de difusão. A opinião pública ocidental engole facilmente qualquer estória, principalmente devido a sua total ignorância sobre a Síria, além, obviamente, de sua fé cega na magia das novas tecnologias.

A guerra midiática
Em primeiro lugar, a campanha de propaganda foca a atenção do público nos crimes atribuídos ao “regime” para evitar qualquer interrogante sobre a nova oposição. Estes grupos armados não tem absolutamente nada que ver com os intelectuais contestatórios que escreveram a Declaração de Damasco.
Esses grupos são formados nos meios extremistas religiosos sunitas e são fanáticos que rechaçam o pluralismo religioso do levante e sonham em instaurar um Estado concebido a sua própria imagem e semelhança.  Se lutam contra El-Assad, não é porque estimam que se trate da luta contra o autoritarismo, senão porque o presidente é um alauita, que para eles equivale a ser herege.
Desde essa ótica, a propaganda contra Bachar está baseada em uma inversão da realidade.  Um exemplo é o caso do blog “Gay Girl in Damascus”, criado em fevereiro de 2011. Para muitos meios de comunicação, esse sítio, editado em inglês pela jovem Amina, se converteu em uma fonte de informações sobre a Síria. A autoria descrevia a dificuldade que era para uma jovem lésbica, a vida sob a ditadura de Bachar El-Assad e a terrível repressão desatada contra a revolução que estava acontecendo na Síria.
Como mulher e gay, Amina gozava da protetora simpatia dos internautas ocidentais, que chegaram, inclusive, a mobilizar-se quando se anunciou que os serviços secretos do “regime” lhe haviam prendido.  Conclusão, Amira nunca existira. Sua direção IP permitiu comprovar que o verdadeiro autor do blog de Amina era um “estudante” estadunidense de 40 anos chamado Tom McMaster.  Este propagandista, que supostamente está fazendo um doutorado na Escócia, estava participando do congresso da oposição síria pro - ocidental que reclamou na Turquia uma intervenção da OTAN contra o governo de Bachar El-Assad.  Por conseguinte, não estava ali como estudante.
O mais surpreendente desta história não é a ingenuidade dos internautas que engoliram facilmente as mentiras da suposta Amina, mas as mobilizações dos defensores das liberdades em defesa de gente que na realidade luta contra as liberdades. Na Síria laica, a vida privada é considerada um santuário. É possível que seja difícil defender a vida privada no seio da família, mas isso não acontece a nível da sociedade.
Apesar disso, aqueles a quem os meios de comunicação ocidentais apresentam como revolucionários, e a quem consideramos contra-revolucionários, são na realidade violentamente homofóbicos e, inclusive, são adeptos dos antigos castigos corporais e, em alguns casos, até a pena de morte para castigar esse “vício”.
Esse princípio de inversão da realidade está sendo aplicado em grande escala.  Vamos recordar os informes da ONU sobre a crise humanitária desatada na Líbia: dezenas de milhares de trabalhadores imigrantes fogem desse país para escapar da violência!  Os meios de comunicação utilizaram esse fato para concluir que o regime de Kadhafi deveria ser derrubado e que haveria de se apoiar os sublevados de Benghazi.  No entanto, o responsável deste drama não era o governo de Trípoli e sim os supostos “rebeldes” da região de Cirenaica, que desataram uma verdadeira carnificina contra os negros.
Movidos por uma ideologia racista, os “rebeldes da OTAN” afirmam que os negros estavam a serviço de Kadhafi e os lincham.
No caso da Síria, as cadeias de TV deste país transmitem imagens de grupos de homens armados localizados nos telhados das casas, de onde disparam ao azar sobre as multidões e as forças do governo. No entanto, as cadeias de TV ocidentais e sauditas retransmitem as imagens atribuindo os crimes ao governo de Damasco.
Definitivamente, o plano de desestabilização em marcha contra a Síria não está dando os resultados esperados. Se por um lado têm convencido a opinião pública ocidental de que este país vive sob uma terrível ditadura, por outro, na Síria provoca a unidade da imensa maioria da população em torno do governo.  Algo que pode resultar perigoso para os elaboradores do Plano, sobretudo para Tel Aviv.  Em janeiro e fevereiro de 2011 fomos testemunhos do surgimento de uma onda revolucionária no mundo árabe, seguida em abril e maio de uma onda contra revolucionária. A balança, todavia, está em movimento.

A recolonização da África no século XXI


Muitos acreditam no carater humanitário das invasões extrangeiras 
perpetuadas pelas potências militares mundiais contra Líbia e Síria.

O porta-aviões George H. W. Bush foi enviado para a costa da Síria.
 Em meio a informes de que uma zona de exclusão aérea poderia ser imposta sobre o país, a embaixada dos Estados Unidos em Damasco ordenou aos seus cidadãos que partam “imediatamente” e a França propôs uma intervenção militar formal da OTAN.
“Provavelmente a evidência mais irrefutável de que o mundo ocidental está a ponto de fazer o impensável e invadir a Síria, e nesse ínterim obrigar o Irã a responder, é a atualização semanal do Stratfor (companhia de inteligência global), que reporta que pela primeira vez em muitos meses o porta-aviões CVN 77 George H. W. Bush deixou seu tradicional teatro de operações justo ao lado do Estreito de Ormuz, um crítico ponto de controle, onde tradicionalmente acompanha o porta-aviões Stennis, e estacionou ao lado da Síria”, informa oportal Zero Hedge, que publica os registros navais proporcionados por Stratfor:
AUMENTA A TENSÃO
As tensões também aumentaram na quarta-feira logo que a embaixada dos EUA em Damasco instou seus cidadãos a irem-se da Síria “imediatamente”, enquanto o chanceler da Turquia disse a seus cidadãos evitarem viajar ao país em seu regresso desde a Arábia Saudita.
O número de linhas aéreas que operam na Síria diminuiu significativamente desde o verão, enquanto que muitas daquelas linhas aéreas que permanecem lá reduziram o número de voos.
A administração Obama tranquilamente retirou seu embaixador Robert Ford do país no mês passado e indicou que não regressará.
Atacar a Síria poderia representar uma corrida final ao redor da criação de uma justificativa para um ataque sobre o Irã por parte de Israel e dos EUA devido ao fato de que o Irã prometeu defender seu aliado.
China e Rússia se opuseram agressivamente a qualquer ação, com a Rússia enviando seus navios de guerra para águas territoriais sírias na semana passada, uma tática desenhada para dissuadir qualquer ataque da OTAN.
Várias pesquisas demostraram que a maioria dos estadunidenses se opõe a uma intervenção militar na Síria, com apenas 12% a favor de qualquer tipo de conflito.
Traduzido do inglês por Ivana Cardinale para o Correo del Orinoco

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Xingu, o sangue da nossa sobrevivência




“Esta luta não é só dos chilenos, mas de todos os jovens do mundo”


Camila Valejo


 “A esperança é muita, porque se vê que o Chile já não é o mesmo de antes, que a partir disto há um despertar, mas também uma mudança ou o início de uma mudança na estrutura mental”
 17/11/2011
 Oleg Yasinsky
Santiago, Chile


Um renovado movimento estudantil cresce no Chile desde maio deste ano. São já seis meses de protestos nas ruas, assembleias e articulações com outros setores da sociedade, sob a primeira demanda de um novo modelo de educação que se traduz em uma demanda contra o sistema neoliberal em geral.
Camila Vallejo, uma jovem de 23 anos, estudante de Geografia, tornou-se uma das figuras visíveis do movimento mais importante no Chile desde a chegada da Concertación. Presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile, militante das Juventudes Comunistas, Camila fala em entrevista ao Desiformémonos dos desafios e esperanças do movimento, das conquistas obtidas e dos temores atuais. Na primeira entrevista concedida a um meio de comunicação mexicano, Camila saúda aos estudantes da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e envia uma mensagem aos jovens da América Latina.

A seguir a entrevista completa:

O que é ser de esquerda hoje?
Primeiro, tem que se entender que é necessário fazer mudanças profundas na sociedade e no sistema político-econômico e cultural, que é a estrutura, mas também tem que se ter a consciência de que isso requer fazer ação coletiva, trabalho coletivo e trabalhar de maneira organizada e em unidade. Em segundo lugar, essa transformação tem que ter o objetivo de recuperar a soberania dos distintos povos, particularmente no Chile, que essa soberania não somente se traduza na recuperação dos recursos naturais, mas também no poder de distribuir de melhor forma o poder político, uma democracia muito mais coletiva, muito mais participativa que implica em gerar a nível institucional os espaços necessários para que as diferentes sociedades tomem em suas próprias mãos a construção do futuro, e isso com o princípio básico de ter maior justiça social, que passa tanto por justiça distributiva como justiça produtiva e, nesse sentido, não só se foca na recuperação dos meios de produção materiais, mas também culturais, no conhecimento, tem que se democratizar. Acredito que esse é o grande desafio hoje em dia da esquerda.

Por que este movimento surge agora, 23 anos depois do término da ditadura? Por que deixou-se passar tanto tempo? Parecia que no Chile não acontecia nada...
No Chile sempre estão acontecendo coisas, o que acontece é que para fora não se mostra isso, para fora se diz que somos uns jaguares da América Latina, que somos um país exemplar, com um modelo educacional exemplar, que temos uma estabilidade a nível de governo muito clara, um abrupto crescimento econômico, que temos acabado com a pobreza, mas não se mostra como se tem acumulado certos descontentamentos sociais, resultado de lutas, que não têm tido um bom final.
Temos tido mobilizações não tão massivas como esta, mas que têm sido importantes, que têm colocado mudanças sobre a mesa e ainda assim nossa institucionalidade política não tem lhes permitido expressar-se e que essa opinião se traduza em algo vinculativo, como um projeto de lei; então, há uma acumulação de descontentamento que obviamente tem a ver também com o desenvolvimento, a perpetuação e o aprofundamento da desigualdade em nosso país, um país que tem combatido a pobreza, a indigência e onde, contudo, a desigualdade cresce cada vez mais, e o pior, é que a gente tem tomado consciência de que essa desigualdade não é por mero continuísmo de algo, mas que está se reproduzindo como resultado do sistema dominante que foi instaurado à força na ditadura. Aqui se reflete que este estouro social, como se tem assinalado, não é algo espontâneo, mas que vem de toda essa acumulação e amadurecimento de lutas sociais anteriores.

Por que vocês têm tanto apoio e tanta simpatia do povo e não só no Chile? Esperavam uma reação assim a princípio?
Acredito que atacamos problemas centrais do sistema e creio que isso tem gerado transversalidade. Esta não é uma luta sindical, pela defesa de algo corporativo ou algo que não implique diretamente aos estudantes, mas a problemática que se tem apresentado e a demanda que se levanta é uma demanda social, que é para todos, não somente para a atual geração, mas para a futura, e isso tem gerado simpatia e tem também despertado a consciência de muita gente, devolvendo a esperança a aqueles que haviam lutado anteriormente, mas por temor não seguiram lutando, e creio que isso tem sido a principal riqueza deste movimento: a transversalidade, o despertar da consciência, o ataque ao problema central e, sobretudo, o resultado do movimento; creio que não temos negociado, não por intransigência, mas por responsabilidade ante questões que para nós são éticas e morais, que são luta legítima. Nesse aspecto, creio que se tem gerado o maior respaldo social a este movimento.

Quais são os medos e as esperanças deste movimento depois de tantos meses?
A esperança é muita, porque se vê que o Chile já não é mais o mesmo de antes, que a partir disto há um despertar, mas também uma mudança ou o início de uma mudança na estrutura mental, que não chegou ainda, mas se vislumbra; e que a partir daqui podem se desenvolver processos de construção muito mais arraigados na base social que possibilitem reconstruir o tecido social que foi destruído durante a ditadura.
O temor mais grande é que isto se mantenha de maneira linear e que não tenha êxito, e que a frustração seja tão grande que o recolhimento também seja muito prolongado. Nesse sentido, o como poder fazer agora, por exemplo, retirada tática para a acumulação de força e para reformular-se a estratégia, dado que o governo não está fazendo nada, creio que é o maior temos - “O que vai acontecer com isto?”, não somente o dizia Lenin, mas que outros grandes intelectuais falavam de como tem que dar-se as lutas sociais, é que têm momentos onde um não pode fazer só pressão, pressão, pressão, inerte, mas que um também tem que tomar o pulso, retroceder e voltar a pressionar com mais força. E creio que isto falta, e ainda não o podemos aplicar.

Que lugar ocupa a tecnologia na vida cotidiana dos jovens chilenos? Que valor vocês dão às redes sociais? Elas têm sido realmente importantes para este movimento?
São uma ferramenta dinamizadora dos fluxos de informação, das convocações, acredito que têm permitido maior fluidez, mas não têm sido o fator determinante para a articulação de um movimento amplo e massivo. Acredito que isso se trabalha no seio da organização, de uma forma personalizada. Quer dizer, este movimento não se levantou graças às redes sociais. Antes pela construção que vem desenvolvendo-se há muitos anos. São as organizações, é seu amadurecimento político orgânico, a articulação que se gerou com o movimento; a construção tem sido do trabalho pessoal, não midiatizado por Facebook, nem Internet ou Twitter.

Como o povo mapuche participa nas mobilizações estudantis?
O povo mapuche é um ator que ainda não é maioritário, mas tem se integrado a este processo. Não somente porque a demanda histórica da recuperação de suas terras é muito mais antiga que a nossa, mas porque a problemática da educação é muito mais integral do que pensávamos. De como se forma, como se educa. É através do processo de educação que se respeitam as distintas identidades e, neste caso, considerar como uma nação um povo que não é o mesmo que o povo chileno, que é o povo mapuche, que é diferente. Então, o projeto educativo que nós acreditamos que tem que se criar para o futuro envolve a realidade do povo mapuche: sua história, sua construção, sua visão de sociedade, sua visão de futuro, sua relação com o meio; essas coisas nós não somente temos que apresentar como um desafio para envolvê-las no sistema educacional, mas como uma questão à parte, também temos que nos alimentar desse conhecimento. Aqui tem exercido um papel muito importante o povo mapuche com a integração particular da Federação Mapuche de Estudantes, a Confech, que tem nos permitido repensar o projeto educativo com este fator.

Qual é o papel da imprensa e dos jornalistas nesse processo?
São um poder real. A imprensa no Chile está muito manipulada pelos grandes grupos econômicos, joga em grande medida a favor dos interesses do governo, obviamente. Todos conhecemos dos duopólios que estão por trás dos grandes meios de comunicação. Neste processo, ao menos a princípio, dispôs muito bem a opinião pública ao que estava acontecendo porque não havia outra, porque era muito massiva a manifestação, muito criativa, muito diversa, alegre; aqui o papel que exercem os meios também tinha que ser um pouco mais imparcial. Contudo, com o desenvolvimento do conflito se chegou ao ponto em que não se resolve nada com o governo e os meios tomaram outra estratégia, já clara, de indispor a opinião pública ante o movimento estudantil, os movimentos sociais, e isso se vê nas ruas, a disposição se centra na suposta delinquência, na violência, na necessidade de se reprimir, de criminalizar o protesto social; então, obviamente, os meios de comunicação são do sistema – um sistema comunicacional – em que se permite reproduzir a hegemonia de um discurso dominante, um discurso que provém particularmente do governo atual, dos setores mais reacionários.
Outra coisa são os meios alternativos, a rádio; eles exercem um papel que está se diversificando e ampliando mais, resultado da necessidade de comunicar da melhor forma o que está acontecendo. Com mais objetividade, um pouco mais a favor do que é realmente o movimento estudantil.

Em que momento sentiram que este movimento teria tanta força?
A verdade é que todos nós nos surpreendemos. Na primeira manifestação não esperávamos mais de 3 mil pessoas e chegaram em torno de 10 mil; esta foi a primeira vez que nos surpreendemos. Depois veio a segunda e a terceira crescia e não parava, não parava e todos nos surpreendemos; a cada manifestação que convocamos aderia mais gente.
A verdade é que houve uma surpresa contínua durante todo esse tempo e em algum momento pensamos “bom, houve um salto qualitativo maior”. Nós sempre soubemos que a demanda partia de algo simples, concreto: o endividamento, o problema do financiamento, chegando às propostas mais políticas, o sistema educacional que queremos e uma questão mais social – e política, também – que tem a ver com o questionamento do modelo de desenvolvimento que há no Chile. Então começamos a ver que a demanda não era setorial, mas que era multi-setorial, um problema mais sistêmico, que havia uma totalidade de setores e que todos eram afetados pelas consequências deste modelo de desenvolvimento que produz desigualdade, que produz injustiça, que não garante os direitos fundamentais.
Em determinado momento nos demos conta de que estávamos dando um salto qualitativo e que aqui não somente se questionava a qualidade da educação, mas a qualidade da nossa democracia, uma democracia falha, débil, que precisa se modificar, reformular-se e, nesse questionamento, começam a envolver-se muitas outras organizações, muitos outros setores, onde está a principal riqueza do movimento atual. Envolvem-se trabalhadores, povos, movimentos ambientais, homossexuais, etc.. Todas as minorias com projetos de maiorias.

Uma vez, falando dos partidos oficiais da esquerda do México, o deputado Marcos disse que são “a mão esquerda da direita”. Esta identificação seria válida para a Concertación também?
Sim, claro que sim. Finalmente a Concertación é a outra direita. A verdade é que no Chile nunca tivemos socialdemocracia. Nunca tivemos um regresso à democracia dentro de um processo de transição; é como uma transição que nunca termina, mas que é nada mais que a administração do modelo imposto na ditadura que nunca conseguiram questionar apesar de terem as possibilidades e o quórum necessário para fazer uma mudança estrutural, porque se acomodaram no modelo neoliberal que lhes gerou também um benefício, no âmbito da educação, por exemplo.
A Concertación tem um conflito de interesse. Tem escolas, tem universidades, etc. Então, toda esta crítica, toda esta desconfiança que surge dos jovens e em geral da sociedade em seu conjunto para a Concertación se justifica, e aqui a Concertación tem que encarregar-se. Tem que encarregar-se de todo o feito e de capitalizar politicamente isto ou o que impere o oportunismo político; tem que ter humildade e tem que ter uma auto-crítica muito forte.

A revolução dos pinguins.
Durante a revolução dos eu estava no primeiro ano da Universidade; claro, eu a via como uma questão impressionante, impactante a nível de massividade. Foi muito mais curta, mais breve, essa manifestação.
Minha opinião pessoa é que se perdeu a oportunidade de chamar a outros setores; acredito que os estudantes secundários quiseram exercer um papel protagonista. Acho que eles quiseram ser protagonistas nesse momento e não envolver outros setores; pensavam nos universitários como “apoiem mas não façam parte”. Então, acredito que houve uma marginalização, que talvez seja compreensível e legítima nesse momento, para não misturar elementos e posicionar em uma demanda central e para que ninguém instrumentalize o movimento; havia uma oportunidade real de fazer uma questão mais transversal e de maior pressão, porque entrou uma instância de negociação com a Comissão Assessora Presidencial onde não houve uma boa preparação, a classe política, e isso gerou um golpe e uma frustração muito grandes, que acabou com seu trabalho. Mas isso também nos ajudou a amadurecer e a ter esses elementos para não cair no mesmo jogo, nos serviu como experiência e, por isso, também, tem durado tanto e não caiu tampouco no jogo da manipulação de ninguém.

Quando o movimento de estudantes chilenos recém estava ascendendo, a impressa não sabia nem escrever corretamente seu apelido, de imediato te chamou de “líder” deste movimento. Parece que nestes tempos, depois da queda dos “socialismos reais”, que talvez não foram tão reais nem tão socialismos, o povo e os jovens não querem mais líderes nem vanguardas iluminadas... Vivemos uma necessidade de reformular o tema do poder não só fora, mas também dentro dos nossos movimentos... Como vê esse tema? Você se sente uma líder, uma dirigente, uma coordenadora, uma porta-voz?
Eu creio que a história nos pôs aqui. Não creio que sejamos líderes natos, eu acredito que as circunstâncias me obrigaram a estar aqui; poderia estar outro. E nos colocou como dirigentes neste momento. Acredito que este movimento se deve, principalmente, ao trabalho de todos, não principalmente às caras mais visíveis, mas a todos os que constroem dia a dia isto. Não porque saem para marchar, mas que constroem desde a assembleia, desde a articulação com outras organizações, e, nesse sentido, compartilho a ideia de que o poder não tem que estar concentrado em uma liderança, mas na base do movimento. E isso é um desafio também, porque hoje em dia não existe a revogação do poder, ou seja, ainda se apresenta como a problemática, a demanda e a exigência, o mesmo de sempre, mas não é a real consciência ainda, mesmo sendo um potencial que está se gerando, o de encarregar-se, do “encarreguemo-nos do que estamos pedindo”, sabendo que é uma luta ao longo prazo.
Nós não depositamos um cheque em branco a cada quatro anos a quem supostamente delegamos a responsabilidade de fazer mudanças, mas que nós mesmos nos encarregamos disso. Agora, eu acredito que ainda existe muito, e não somente a nível nacional, mas a nível mundial, a necessidade de ver o tema das lideranças, estes heróis que sempre se tratam de instalar na história, de que haja heróis que encabecem processos e povos como quem sente essa necessidade para retomar a esperança, mas acredito que tem que se reformular isso, fazer prevalecer a ideia de que o poder e a condução tem que ser em massa. Isso é fundamental, e no Chile, de alguma maneira, tem se desenvolvido assim, apesar dos meios instalarem muito a personificação.

Nos últimos 5 meses você se converteu em uma pessoa muito conhecida e querida pelo povo, não só no Chile. Há quem diga que as pessoas com o poder ou a fama sempre se transformam. Qual tem sido a sua experiência com este tema?
Não sei se me sobra tempo para que a vaidade suba à minha cabeça. Acredito que ainda me custa assimilar o impacto que tem isto na gente. É que muitos se focalizam no eu, eu, eu.... Mas creio que não. Creio que temos os pés no chão.

Se você escuta os políticos profissionais, a palavra eu é a mais frequente...
Sim, nos políticos profissionais, mas falando do movimento acredito que não, sabemos equilibrar esta situação e sempre dizemos isso também. Acho que é importante enfatizá-lo, porque muitas vezes vamos a fóruns ou conferências e nos aplaudem não por sermos nós. Os aplausos têm que ser para todos os nossos companheiros que nestes momentos o merecem. E nós estamos nas câmaras, e nas reuniões e fazendo mil coisas, mas se esquecem de todo o trabalho que os companheiros estão fazendo e sem eles isto não seria possível. Quem está construindo a base deste movimento são todos os estudantes, trabalhadores, professores que trabalham diariamente. Isso temos muito claro, e acredito que tem ajudado muito a não permitir que a vaidade não nos suba à cabeça.

Influências e referencias históricas
Talvez seja pela cultura que eu recebi do meu partido, mas acredito que não tem que ser comunista para valorizar e admirar Violeta, Víctor Jara e Allende. Eles são os que mais admiro como lutadores no âmbito da cultura e da política, ou seja, eram trabalhadores da cultura e além disso militantes de um projeto de construção, de transformação para maiorias, e sacrificaram tudo por isso. Esses são personagens pelos quais sinto muita admiração e tantos outros que vêm de antes, como (Luis Emilio) Recabarren. E da América Latina há vários, mas talvez são mais intelectuais: Mariátegui, Galeano, o Che, mas me gera muito mais simpatia e admiração o papel dos trabalhadores da cultura e Salvador Allende, que merecem todo o meu respeito e admiração.

O que gostaria de dizer aos jovens do México e da América Latina?
Aos do México, muito obrigada pelo exemplo de luta; eles, os da UNAM, nos mostraram que se pode sim, e isso é para nós muito esperançoso. E ao jovens da América Latina em geral que assumam com responsabilidade o que se tem impulsionado, no sentido de que é necessário sempre reger-se por alguns princípios; primeiro, fortalecer nossas organizações, pois são um fio que a suor, sangue e lágrimas todos temos conquistado, devemos defendê-las e protegê-las, porque são nosso patrimônio, são nossa principal ferramenta para a construção de uma sociedade distinta. A unidade, apesar das diferenças, mantê-la sempre. As esquerdas são muitas em todos os países; têm que ser construídas apesar da diferença. Nosso inimigo é um só, não está dentro. Por outro lado, entender que as grandes transformações não são feitas só pelos estudantes; tem que envolver aos trabalhadores, a nossas famílias, e tem que se ter boas estratégias de comunicação. Muitas vezes acreditamos que qualquer pessoa pode entender o que estamos apresentando, mas não é assim; tem que se usar o sentido comum, ainda que seja o menos comum dos sentidos muitas vezes, mas tem que se usar uma linguagem que chegue até o mais humilde, ao mais pobre. E isso é algo que temos que tratar com inteligência, sem perder o conteúdo. É uma recomendação, e a seguir adiante, que esta luta não é somente dos chilenos mas que é uma luta de todos os jovens, de todos os estudantes de todos os povos no mundo, que é uma luta por dignidade humana e pela recuperação de nossos direitos para alcançar essa dignidade que todos queremos, e sociedades mais humanas.