domingo, 8 de maio de 2016

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quinta-feira, 24 de março de 2016

Heróis Negros na História do Brasil

Zumbi dos Palmares


Machado de Assis


Aleijadinho


Laudelina Campos Melo


Solano Trindade


Carolina de Jesus


Luiz Gama


André Rebouças


Teodoro Sampaio


Chiquinha Gonzaga


Negro Cosme


Veridiano Farias


Paulo Portela


Maria Auxiliadora da Silva


Juliano Moreira


Mestre Valentim


Elizeth Cardoso


Edison Carneiro


Paula Brito


Raimundo de Souza Dantas


Beatriz Nascimento


Mãe Aninha


Luiza Mahin


Leonidas da Silva





Os sonhos dos adolescentes



Ao longo de 30 anos de clínica, encontrei várias gerações de adolescentes (a maioria, mas não todos, de classe média) e, se tivesse que comparar os jovens de hoje com os de dez ou 20 anos atrás, resumiria assim: eles sonham pequeno.
É curioso, pois, pelo exemplo de pais, parentes e vizinhos, os jovens de hoje sabem que sua origem não fecha seu destino: sua vida não tem que acontecer necessariamente no lugar onde nasceram, sua profissão não tem que ser a continuação da de seus pais. Pelo acesso a uma proliferação extraordinária de ficções e informações, eles conhecem uma pluralidade inédita de vidas possíveis.
Apesar disso, em regra, os adolescentes e os pré-adolescentes de hoje têm devaneios sobre seu futuro muito parecidos com a vida da gente: eles sonham com um dia-a-dia que, para nós, adultos, não é sonho algum, mas o resultado (mais ou menos resignado) de compromissos e frustrações.
Um exemplo. Todos os jovens sabem que Greenpeace é uma ONG que pratica ações duras e aventurosas em defesa do meio ambiente. Alguns acham muito legal assistir, no noticiário, à intrépida abordagem de um baleeiro por um barco inflável de ativistas. Mas, entre eles, não encontro ninguém (nem de 12 ou 13 anos) que sonhe em ser militante do Greenpeace. Os mais entusiastas se propõem a estudar oceanografia ou veterinária, mas é para ser professor, funcionário ou profissional liberal. Eles são "razoáveis": seu sonho é um ajuste entre suas aspirações heróico-ecológicas e as "necessidades" concretas (segurança do emprego, plano de saúde e aposentadoria).
Alguém dirá: melhor lidar com adolescentes tranqüilos do que com rebeldes sem causa, não é? Pode ser, mas, seja qual for a qualidade dos professores, a escola desperta interesse quando carrega consigo uma promessa de futuro: estudem para ter uma vida mais próxima de seus sonhos.
Aparte: por isso, aliás, é bom que a escola não responda apenas à "dura realidade" do mercado de trabalho, mas também (talvez, sobretudo) aos devaneios de seus estudantes; sem isso, qual seria sua promessa? "Estude para se conformar"?
Conseqüência: a escola é sempre desinteressante para quem pára de sonhar.
Em princípio, os jovens interpretam o desejo (inconsciente) dos pais e herdam os sonhos reprimidos atrás das vidas (fracassadas ou bem-sucedidas, tanto faz) dos adultos. Aquela fala chata dos pais, que evocam as renúncias que foram necessárias para conseguir criar os filhos, aponta o caminho de aventuras menos sacrificadas. Há uma guitarra empoeirada no sótão do comerciante ou do profissional cujo filho quer ser roqueiro. O que mudou? Duas hipóteses.
É possível que, por sua própria presença maciça em nossas telas, as ficções tenham perdido sua função essencial e sejam contempladas não como um repertório arrebatador de vidas possíveis, mas como um caleidoscópio para alegrar os olhos, um simples entretenimento. Os heróis percorrem o mundo matando dragões, defendendo causas e encontrando amores solares, mas eles não nos inspiram: eles nos divertem, enquanto, comportadamente, aspiramos a um churrasco no domingo e a uma cerveja com os amigos.
É também possível (sem contradizer a hipótese anterior) que os adultos não saibam mais sonhar muito além de seu nariz. Ora, a capacidade de os adolescentes inventarem seu futuro depende dos sonhos aos quais nós renunciamos. Pode ser que, quando eles procuram, nas entrelinhas de nossas falas, as aspirações das quais desistimos, eles se deparem apenas com versões melhoradas da mesma vida acomodada que, mal ou bem, conseguimos arrumar. Cada época tem os adolescentes que merece.



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O texto acima, extraído do livro Sociologia para o ensino médio, de Nelson Dacio Tomazi é de autoria de Contardo Calligaris, publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo, em 11 de janeiro de 2007.


A proposta do artigo é questionar: 


1) Os jovens de hoje têm a capacidade de reagir com vigor às injustiças sociais, à degradação ambiental ou à morte de pessoas cotidianamente, pela violência ou pela falta de assistência médica?



2) Conformismo ou resistência e ação alternativa qual a bandeira a ser levantada?



409.000 acessos! Obrigado a todas e todos!

Cadeia, ódio ou educação, amor? Você é o juiz



- Quantos anos você tem?
- 16.
- Está na escola?
- Sim
- Qual série?
- 4ª série.
- Já usou drogas?
- Sim
- Qual?
- Maconha e cigarro.
- Quando aconteceu o crime, onde sua mãe estava, ao lado do seu pai na cama?
- Não. Minha mãe estava dormindo em cima da laje.
- Em cima da laje? Por que?
- Porque meu pai tinha batido nela e ela não tava conversando com ele.
- Seu pai lhe espancava?
- Sim. Todos os dias.
- Por que?
- Ele chegava doidão do serviço e vinha batendo.
- Ele batia muito?
- Sim. Já desmaiei de tanto apanhar algumas vezes.
- Ele batia na sua mãe?
- Sim. Um dia ele quebrou a fivela do cinto na cara dela.
- Você está arrependido?
- Sim.
- Sente falta do seu pai?
- Não, ele não me dava nada.
- O que ele devia te dar?
- Sei lá, carinho? Ele nem conversava comigo.
- Você estava matando aula?
- Não.
- Mas aqui no processo diz que você estava matando aula e seu pai lhe deu um castigo.
- Eu tava matando aula, mas tava dentro do colégio, jogando bola.
- Onde você conseguiu a faca?
- Em casa.
- No mesmo dia?
- Sim.
- Quando você matou seu pai, ele estava dormindo?
- Sim.
- Mas se ele estava dormindo não estava te batendo.
- Mas ele tinha batido antes de dormir.
- Se eu te perguntar qual a lembrança boa que você tem do seu pai, qual você diria?
- Nenhuma, ele só me batia. Batia em mim e na minha mãe.
- Onde vocês moravam?
- No Morro da Pedreira.
- Certo. Vamos chamar a testemunha, a mãe.

- Boa tarde, senhora. O seu marido lhe espancava?
- Sim, todos os dias. Batia em mim e no meu filho.
- Mas ele batia todos os dias?
- Sim. Já desmaiou o menino, a ponto de ter que leva-lo pro Pronto Socorro, mas não levei por medo.
- A senhora denunciou seu marido?
- Não. Se eu denunciasse, ele me matava.
- Seu filho vivenciou essa situação desde quando?
- Desde criança.
- A senhora se sente aliviada?
- Não.
- A senhora sente falta do seu marido?
- Não. Eu não me conformo com a situação em que ele me deixou.
- A senhora não se conforma com o seu filho ter matado seu marido?
- Não. Eu não me conformo com o que ele fez. Ele não dava carinho, nunca educou. Era só pancada, pancada, pancada.
- E agora, senhora?
- Agora está nas mãos do Senhor!

OBS: Diálogo real entre uma Juiza da Infância e Juventude do Rio de Janeiro no julgamento de um adolescente que esfaqueou o próprio pai, o levando ao óbito.
Sentenças possíveis:
1. Internação no Instituto Padre Severino
2. Prestação de Serviços à Comunidade.
3. Medidas Protetivas: Acompanhamento Psicológico, Inclusão em Programa Social, Acompanhamento Escolar e Inclusão e Curso Profissionalizante. Apoio assistencial à família.
4. Redução da Maioridade Penal e prisão do adolescente em Bangu 1.
5. Pena de Morte ao Adolescente.

Você é o Juiz!

Professores manipuladores



Hoje uma estudante me disse:


- Professor, o que o senhor acha do Impeachment da Dilma?
- Acho que não existe impeachment, existe golpe.
- Mas o senhor não acha que tá uma roubalheira?
- Sim, acho. E acho que os ladrões têm que ira pra cadeia, por isso a investigação está acontecendo.
- Mas a Dilma não tem culpa?
- Não sei, as investigações vão dizer. Mas me diz uma coisa: E o caso da Alston? E o Antônio Anastasia? Desses você não pede impeachment?
- Alston? Quem é esse?
- Não é esse, é essa. Uma empresa que superfaturou mais de 500 milhões no metrô de São Paulo, governo do PSDB.
- Ah, não sabia.... Mas eu sou a favor do Impeachment.
-Tudo bem, se você concorda com Temer e Cunha na condução do país.
- Temer e Cunha? Quem são esses?
- Já vi que você tá sabendo muito sobre o impeachment!
- Eu vi no Tv Revolta, uma página do face que tá bombando.
- Ah, a página patrocinada pelo Álvaro Dias?
- Quem é Álvaro Dias?
- Um cara muito "honesto" e amante do povo brasileiro. Senador do PSDB envolvido até com trabalho escravo.
- Mas ontem eu vi no Jornal Nacional que foram mais de 200 milhões!
- Sim, desde 1996!
- Então! Desde o Lula, professor!
- Não, em 1996 o presidente era o FHC, do PSDB.
- Sabia não!
- Professor, já percebi, você é petista, né?
- Não, não sou petista. Eu apenas procuro me informar e não ser massa de manobra da TV criada pela Ditadura Militar.
- Que canal, professor?
- A Globo, que sempre apoiou a Ditadura.
- Mas agora a Globo tá mostrando as coisas!
- Sim, mostrando o que ela quer, ou seja, mostrando somente o que quer que vejamos.
- Ah, professor, fala a verdade, o senhor é petista, não é?
- Não preciso mentir, não sou petista.
- Mas porque o senhor defende a Dilma?
- Não estou defendendo a Dilma, estou apenas dizendo que não quero ser vaquinha de presépio da mídia. Se é pra protestar, proteste também contra o PSDB, pois o caso da Alston é maior do que o mensalão.
- Sabia não... O senhor vai apoiar o impeachment?
- Só se você me responder quem é Temer e Cunha, os que assumiriam.
- Não sei, professor.
- Tá bom, então pesquise, leia e deixe de ser manipulada pela mídia.
- Ah, professor, o senhor é petista mesmo.
- Não vou insistir. Se pensa isso, tudo bem.
- Vou nessa, professor. Tenho que lutar pelos meus direitos!
- Vá com Deus! Que Ele te ilumine e um dia você aprenda um pouco sobre história, política e não seja tão manipulada.
- Vou nessa. Fora Dilma! Impeachment já!
---- x ------
Não sabe o que é impeachment, nem que isso é uma manobra golpista após 3 meses de uma eleição onde milhões de brasileiros escolheram democraticamente, através do voto secreto sua Presidenta.
Não sabe quem é Michel Temer, nem Eduardo Cunha.
Não sabe a história da Globo e da grande mídia, nem entende os interesses envolvidos nas suas "notícias".
Não sabe nada sobre o caso Alston, nem outro caso de corrupção tucana, nem nada sobre a "privataria tucana".
Não sabe nada, nem mesmo o nome do ex-Governador de Minas Gerais.
Não sabe nada de nada e se acha "rebelde" buscando informação numa página financiada por um deputado do PSDB envolvido com trabalho escravo.
Como dizem por aí: sabe nada, inocente!
E depois eu sou o "manipulador"... afff.


Triste demais os rumos do Brasil

A direita tomando as ruas, praticando violência... É o mesmo método de 1964... gerar caos, violência, instabilidade.

Não dá pra acreditar no processo de impeachment conduzido por Eduardo Cunha, nem num juiz que grampeia ex-Presidente e ao invés de mandar o áudio para a Justiça, manda para a rede Globo.

Um adolescente quase foi linchado na Avenida Paulista agora há pouco. Gente querendo conflito, gente maluca ofendendo, intolerante... Não querem o fim da corrupção, querem o caos, querem o governo de volta para retomarem seus privilégios.

Se Dilma cai, em menos de um mês os ladrões da direita estarão, como sempre foi, salvos de investigações, processos e cadeia. Se Dilma cai, Cunha se safa, Aécio fica tranquilo, o PMDB assume o poder e a direita entrega de vez nosso petróleo ao capital estrangeiro.

Somente cegos convictos não percebem, o Golpe caminha a passos largos... Retrocesso no horizonte, democracia em perigo... Não adianta alertar mais quem está decidido a não compreender.

Diz o ditado que um povo que não conhece a sua história está fadado a cometer os erros do passado.. É isso mesmo!

2016, o ano do fim das instituições, da democracia... O ano em que o fascismo saiu de vez do armário.

Triste demais!

Qual o embasamento jurídico para o impeachment?



Você sabe qual o embasamento do pedido de impeachment contra Dilma? E suas consequências?
Bom, se você é a favor, mas não sabe o embasamento jurídico, realmente você está indo na "onda", repetindo, papagaiando.

Se você sabe o motivo e acha que é por causa da corrupção, na verdade você não sabe, pois o embasamento jurídico não tem nada com a corrupção.

Na verdade, o embasamento jurídico é por causa das "pedaladas fiscais". O que é isso? Bom se você é favorável ao impeachment nem precisa continuar lendo, pois está bem informado e não se considera "massa de manobra", não é mesmo?

Mas para os humildes que querem realmente saber em que se baseia o pedido de impeachment, aí vai a explicação.

Como todos os governadores, como todos os presidentes que a antecederam, Dilma usou verba dos bancos públicos para custear programas como Bolsa Família, Pronatec e Minha Casa Minha Vida. Tipo assim: A conta ia vencer e o governo não tinha dinheiro e resolveu pegar dinheiro dos bancos públicos para não cortar os programas, pois a arrecadação do governo com a crise mundial diminuiu muito (minério e petróleo caíram mais de 50%).

As pedaladas fiscais nada mais são do que um "EMPRESTADO". Dilma usou o dinheiro da Caixa Econômica Federal e JÁ DEVOLVEU o dinheiro. Isso chama-se "pedaladas fiscais". FHC fez isso, Itamar fez isso, Sarney fez isso, governadores fazem isso... É uma manobra, não trata-se de desvio de dinheiro para enriquecimento pessoal, mas um "realocamento", que deve ser provisório, que deve ser pago.

Mas, como não encontraram NENHUM CRIME cometido por Dilma, alguns juristas da direita resolveram PELA PRIMEIRA VEZ NA HISTÓRIA classificar isso como "improbidade administrativa", um tipo de crime de responsabilidade que pode ser atribuído a qualquer membro do poder executivo (Prefeito, Governador, Presidente).

É isso,o impeachment é uma manobra para retirar Dilma do governo. Existe um princípio constitucional que deveria ser utilizado nesse caso, o de "isonomia", ou seja, deveria valer para todos, mas não, só vai valer para Dilma, por que? Porque é um GOLPE contra a nossa democracia. Tipo: Queremos derrubar esse governo, precisamos achar algo errado e na falta de algo grave, com provas, utilizaremos isso e a mídia vai martelar milhões de vezes até convencer o povão de que isso tá certo.

Com a queda de Dilma, acaba a investigação da lava-jato, assume Michel Temer, o PMDB assume o governo, Cunha se safa, Aécio se safa e a mídia para de falar de corrupção. O Brasil volta a trilhar os caminhos determinados pelos EUA e o projeto do senador José Serra (PSDB), que entrega o petróleo do pré-sal (8 trilhões) ao capital internacional é aprovado. O povo se sente feliz e a elite brasileira se livrará do "comunismo" que o PT nunca fez, nem quis fazer no Brasil.

Talvez ler esse texto até essas linhas finais possa parecer difícil para alguns, mas como já vi em algumas conversas, para esses, não importa a lei, a Constituição, vale apenas derrubar esse governo, como se todos os problemas do Brasil se resumissem à sua queda. Muito pelo contrário, se derrubarem Dilma aí sim o povão vai sentir na pela o que é um governo neoliberal como o liderado pelo PSDB e outros vendedores do Brasil.

Na Argentina não tem sido diferente, o governo neoliberal que assumiu já está reiniciando as privatizações, as demissões em massa, a retirada de direitos trabalhistas, a perseguição aos movimentos sociais e a venda da riqueza nacional argentina aos interesses estrangeiros. Esse é o projeto neoliberal que o PSDB (Partido Supostamente do Brasil) não tem coragem de defender.

Mas tudo bem, se essa explicação não faz sentido, não faz diferença, é normal, pois hoje em dia o normal é não usar a razão, mas a emoção e o pior lado das emoções. o ódio.

Abre a porta, Mariquinha! Ou te quebro no pau de macarrão


Abre a porta, Mariquinha! Eu não abro não!

("A resposta de Mariquinha", ou a razão da Maria da Penha?)

A resposta de Mariquinha é uma música que marcou os anos 1990 na voz da dupla infantil da época Sandy e Júnior, filhos dos milionários cantores sertanejos Chitãozinho e Xororó.

Inocentemente milhões de crianças cresceram cantando essa música. Lembro-me das apresentações nas escolas, o sucesso nos programas de TV. Realmente a música embalou multidões de crianças. Era tudo muito "bunitinho".

Esses dias ouvi essa música que fez parte da infância de muitos adultos de hoje e após uma conversa com uma militante feminista comecei a analisar a letra da música e fiquei estarrecido, "de cara" com o quanto ela é machista. Trata-se de uma declaração de "réu confesso" a ser entregue às autoridades.

O marido de Mariquinha chega à sua casa quando o dia está amanhecendo, voltado da "pagodeira". Provavelmente está embriagado. Bate à porta, mas Mariquinha resiste e não quer abrir. Teria medo Mariquinha? O que diz a letra:

"Oh! Mariquinha, abre a porta e não reclama
Mostra que você me ama, que eu não quero discussão
Você queria que seu bem fosse bocó
Pra te levar no forró
E depois ficar na mão".

Como assim, "abre a porta e não reclama", "você queria que seu marido fosse bocó"? O marido de Mariquinha dá uma ordem à sua esposa e ainda diz que ele, na condição de homem, pode sim ir ao forró sem a sua companhia, pois não queria "ficar na mão".

"Mariquinha eu tô ficando nervoso
E quando eu fico nervoso
Pra mim meia dúzia é seis, abre a porta!".

Aqui tipifica-se o crime de ameaça. O machismo do marido de Mariquinha fica explícito e sua ameaça é prova contundente de que a violência física é eminente.

"Oh! Mariquinha, não levei você comigo
Tive medo do perigo, desse tal de Ricardão
Fui no forró, mas agora tô de volta
Venha já abrir a porta
Que eu não durmo fora não".

Mariquinha ainda ouve de seu marido que o tal do "Ricardão" é uma ameaça à "moral do macho", mas esse mesmo "macho" se acha no direito de paquerar outras mulheres.

O marido de Mariquinha afirma que sua esposa não pode reclamar, deve se calar, ser submissa e faz agora uma ameaça de derrubar a porta e agredí-la com o pau de macarrão:

"Eu já falei que não vou abrir a porta
E peço que você volte sem fazer reclamação
Se eu abrir, já sei o que vou fazer
Você vai ter que gemer
É no pau-de-macarrão".

Como uma música aparentemente "inocente" cantada por milhões de crianças trata naturalmente a violência contra a mulher dessa forma?

Confesso que nunca havia pensado nessa letra, me lembro que a música pra mim era sobre um marido sem vergonha e uma esposinha que não queria abrir a porta, só isso.

Hoje imagino que Mariquinha devia tremer atrás da porta temendo a violência do marido embriagado. Mariquinha já convivia com as ameaças e sabia do marido que tinha, machista, violento. Mariquinha vivia sob ameaças, era reprimida, não tinha liberdade e, por vezes, apanhava de pau.

Horrível! Maria da Penha para esse "macho ferido".

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Havia corrupção na Ditadura?

Quando ouço alguém dizer:"Na época da Ditadura Militar não se via corrupção" me lembro dessa foto. Wladimir Herzog, jornalista torturado até a morte por "questionar" a Ditadura.

Mais informações CLIQUE AQUI 


Somos racistas!



Reconhecer a doença é o primeiro passo de qualquer tratamento: Sim, somos RACISTAS!
Sobre as cotas...
Aí você, ontem ainda, "liberta" o ser humano escravizado na condição de analfabeto, sem terra, sem herança, sem profissão, sem teto, sem dignidade e diz:
- Seja livre! Somos todos iguais!
Cerca de 127 anos depois, nada mudou, apenas se multiplicaram os abandonados e excluídos da Lei Áurea e alguém levanta a voz:
- Vamos fazer algo por esse povo, vamos dar um tratamento especial para quem precisa de tratamento especial e corrigir a desigualdade, vamos "recompensar" o que for possível!
Aí alguém se levanta e diz:
- Não! Não podemos tratar ninguém diferente! Todos somos iguais e a história não influencia em nada o presente!
E assim caminha nosso racismo, nossa segregação racial mantida pelo "mito da democracia racial". Se não podemos tratar diferente os diferentes, como mudar esse quadro?
Algumas pessoas que terão paciência de ler esse texto todo, na altura dessas palavras já deverão estar se remoendo, tomadas pela ideologia "embranquecedora", já devem estar eufóricas para gritar:
- Cotas não! Cotas geram racismo!
Para essas pessoas só faço uma pergunta: entre ter 1% de negros na universidade (sem cotas) e ter 20% de negros (com cotas) onde está a maior exclusão?
Se você for preso ilegalmente e cumprir 10 anos de prisão e depois de solto entrar na justiça e provar a sua inocência, irá você processar o Estado e pedir uma "indenização"? Se fará isso, qual o problema de indenizarmos um povo que foi desumanizado por quase 4/5 da nossa história?
É normal não termos juízes, médicos, grandes empresários e grandes fazendeiros negros? Isso não incomoda? Isso não tem nada a ver com a escravidão e o abandono desse povo que foi transferido da senzala para a favela?
Isso não se muda? Não deve ser mudado? Como? Com discurso de somos todos iguais?
E se fizermos um mantra nacional, onde milhões de pessoas irão repetir:
Somos todos iguais, Fora Preconceito!
Somos todos iguais, Fora Preconceito!
Somos todos iguais, Fora Preconceito!
Somos todos iguais, Fora Preconceito! (centenas de vezes)
Resolveria?
Racismo não se resume a tratamento nas relações interpessoais. Não é uma questão meramente de educação e respeito, mas de desigualdade e desigualdade não se combate com igualdade de tratamento.
Realmente, quando dizem que o Brasil tem um dos piores sistemas de ensino no mundo, acabo por concordar ao ver tanta gente tratando quase 4 séculos de ESCRAVIDÃO como se fosse um feriado de 3 dias.
A escravidão acabou praticamente "ontem" e essa gente foi jogada como animais nas ruas e sempre tiveram do Estado somente a violência dos coturnos, dos cassetetes e assassinatos nas quebradas silenciados pela imprensa burguesa, também branca.
Qualquer gringo que venha ao Brasil perceberá o nosso Apartheid. Qualquer estudo racial do Brasil comprova a desigualdade racial e a institucionalização da desigualdade racial. Qualquer pessoa com o mínimo de informação sabe que a desigualdade racial se combate com políticas afirmativas.
Desiguais devem ser tratados, sim de forma desigual!
Que o preconceito e a ignorância possam ser refletidos e aprofundemos essa questão que envergonha nosso país, nossa gente, nossa história, mas que não tenhamos medo de avançar. Não vamos retroceder um passo.
As cotas são um remédio amargo e como remédio, não tenho lá minhas preferências. As cotas não agem na raiz do problema, que devem ser trabalhado paralelamente, mas são, sem sombra de dúvidas, o remédio mais eficaz, no momento para não perdermos mais uma geração.
Graças às cotas estamos começando a ver, um século após o fim da escravidão, negros ocupando espaços de poder.
___x ___
OBS: "Sim, somos racistas" é uma generalização aplicada ao povo brasileiro e não desconsidera os lutadores e militantes da causa da igualdade racial.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Diálogo entre o cérebro e o estômago

Diálogo entre o cérebro e o estômago
- Mas professor, e se um adolescente de 16 anos fizer mal para o seu filho, como você agiria?
- Bem, se eu o pegasse em flagrante, como ser humano, talvez eu tivesse uma reação inesperada, inclusive poderia agir cegamente e até matá-lo.
- Então, porque você é contra a redução da maioridade penal?
- Porque não planejamos e criamos regras de convívio social com o estômago, mas com a razão. Um adolescente que entre para a cadeia e fique lá 10 anos, ao sair, com 26, estará melhor ou pior?
- Mas você acha certo deixar solto um menor assassino?
- Nunca te disse isso. Ele deve ser preso, mas deve ser respeitada sua condição peculiar de desenvolvimento, ou seja, se está se desenvolvendo, sua punição pode e deve ser educativa. É o mínimo que se pode esperar de um educador... acreditar no ser humano.
- Eu também acho, mas ele deveria ser preso e ficar separado.
- Preso e separado onde?
- Na cadeia.
- Separado só se for do lado de fora, pois dentro não cabe ninguém. E outra, a Lei 8069/90 já prevê a prisão separada dos adolescentes, mas numa prisão em que haja estudo, trabalho, profissionalização e condições para crescer como cidadão.
- Mas não é cumprido!
- Olha o SUS, no papel é maravilhoso, mas não é porque funciona mal que vou pedir o fim do SUS, prefiro lutar pela sua melhoria.
- O adolescente é preso hoje e é solto hoje mesmo. No Brasil, adolescente pode roubar, matar, mas não pode ser preso.
- Já disse, preso pode sim. Se não é preso é porque alguém não está fazendo sua parte e nesse caso é o próprio Estado que quer colocá-lo na cadeia que está falhando ao não criar centros de internação.
- Ficam impunes!
- Não é isso que determina a lei. Podem ser obrigados a reparar o dano, prestarem serviços comunitários e até serem presos. A questão é: a prisão atual do adolescente deve, obrigatoriamente, por força de lei, obrigá-lo a estudar, trabalhar e aprender uma profissão. Na cadeia, aprenderá somente o crime e será aliciado, abusado e explorado pelo crime. Colocar um adolescente na cadeia é incentivar o crime, aumentar sua periculosidade e depois esperar, hipocritamente, que ele saia da cadeia melhor para o convívio social.
- Se ele souber que vai ser preso, vai pensar duas vezes.
- Pode pensar até 50 vezes, o problema não é esse. Vai para o crime, pois o crime lhe oferece oportunidades para saciar os desejos que nossa sociedade coloca nas cabeças dos jovens diariamente: ter, ter, ter.... Mas não vai mudar nada, pois se a ameaça surtisse efeito, os maiores de idade não seriam presos, pois todos adultos que comentem crimes sabem que serão presos e nem por isso deixam de cometer crimes.
- Está assustador, o crime só tem aumentado entre os jovens!
- Crimes pequenos como furto, roubo e a maioria são para conseguir dinheiro para usarem drogas. Nossos jovens estão abandonados e entregues para o tráfico.
- Falo de assassinatos, estupros...
- Assassinatos e estupros praticados por adolescentes entre 16 e 18 anos representam menos de 1% do total desses crimes. Não é porque o Datena mostra um caso todo dia e fica repetindo um mês que vamos entender errado.
- Então devemos deixá-los soltos?
- Aff... Vamos lá, releia nossa conversa. Não ficam soltos, são encaminhados para Centros de Internação, com grades, cerca elétrica, ficam proibidos de saírem, ficam presos. Mas é uma prisão que respeita o adolescente e lhe oferece oportunidades para melhorar através do estudo e do trabalho. A reincidência (retorno ao crime) entre adolescentes beira 30% quando são encaminhados para os Centros de Internação, já entre os adultos presidiários, chega a 70% o regresso ao sistema prisional. Não é racional adotar um sistema falido.
- Ah, professor, não adianta, o senhor não aceita a opinião dos outros.
- Aceito tanto que não lhe impedi de se expressar, o ouvi e respeito sua opinião, mas ela está errada, ou para aceitar tenho que concordar? Esqueceu-se que sou Cientista Social? Que sou especialista no assunto?
- Eu continuo sendo a favor.
- Por que?
- Porque..... tem que pagar.
- Vingança?
- É. Vingança, ele tem que sofrer.
- E depois? Quando ele voltar pra sociedade?
- Desisto professor. O senhor é muito intransigente.
- Se acha que defender uma tese e se negar a adotar outra porque possui argumentos racionais é ser intransigente, talvez eu seja. Mas uma coisa não nego: Ouvir o outro é algo muito positivo para formular nossa opinião. A questão é: A opinião de Ratinho e Datena merece tanto valor?
- Não penso como o Datena, tenho minha própria opinião.
- Sim, a do sendo comum.
- Não mudo de opinião.
- O problema do mundo é que muitos ignorantes estão cheios de certezas enquanto sábios vivem na dúvida. Fique na sua certeza e daqui 10 anos nos falamos. Você verá o resultado dessa política de vingança e "varreção do lixo pra debaixo do tapete".
- Abraço, professor, você é petista?
- Afff.... Vai dormir, moleque! rsrs

por Diney Lenon 


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quinta-feira, 14 de maio de 2015

Atividades a serem desenvolvidas no Blog

Roteiro para a construção do Blog desenvolvido nas aulas de Sociologia:

1. Editar perfil:

"Esse blog é produto das oficinas "Cultura e Tecnologia, ministrado pelo Prof. Diney Lenon, nas aulas de Sociologia, Colégio Municipal Dr. José Vargas de Souza. Tem por objetivo abordar o tema XXXXXXXXXXXX e é composto pelos integrantes FULANO, CICLANO, da 2ª série do Ensino Médio.

2. Adicionar as página:

- Cultura Material
- Cultura Imaterial
- Vídeos
- Entrevistas
- Curiosidades
- Outra Página
- Outra Página (Ex: Página sobre Cinema pode criar : Vencedores do Oscar)

3. Adicionar gadget (miniaplicativo): Lista de Blogs

Adicionar o blog: www.cienciassociaisnarede.blogspot.com

Adicionar mais 9 blogs que têm ligação com a cultura e o tema abordado pelo grupo.

4. Selecionar uma imagem no google. Salvar a imagem e adicionar o gadget IMAGEM, postando a imagem no blog.

5. Selecionar um texto, frase, poesia, etc no google e adicionar o mesmo através de gadget TEXTO.

6. Adicionar o gadget APRESENTAÇÃO DE SLIDES. Incluir uma palavra na busca referente ao tema do blog.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Juizo. O maior exige do menor




Juízo acompanha a trajetória de jovens com menos de 18 anos de idade diante da lei. Meninas e meninos pobres entre o instante da prisão e o do julgamento por roubo, tráfico, homicídio. Como a identificação dos jovens infratores é vedada por lei, no filme eles são representados por jovens não-infratores que vivem em condições sociais similares. Todos os demais personagens de Juízo - juízes, promotores, defensores, agentes do DEGASE, familiares - são pessoas reais filmadas durante as audiências na II Vara da Justiça do Rio de Janeiro e durante visitas ao Instituto Padre Severino, local de reclusão dos jovens infratores.


Juízo atravessa os mesmos corredores sem saída e as mesmas pilhas de processos vistas no filme anterior de Maria Augusta Ramos, o premiado Justiça. Conduz o espectador ao instante do julgamento para desmontar os juízos fáceis sobre a questão dos menores infratores.

Quem sabe o que fazer? As cenas finais de Juízo revelam as consequências de uma sociedade que recomenda "juízo" a seus filhos, mas não o pratica.

sábado, 4 de abril de 2015

Era uma vez outra Maria


Brasil. Conta a história da menina Maria, que percebe que meninas são criadas de maneira diferente dos meninos, e descobre que essa criação influencia seus desejos, comportamentos e atitudes. De lembranças da infância a sonhos para o futuro, Maria questiona o seu papel no mundo.

Minha vida de João



Brasil. 2001. 23’. Produção: ECOS, Instituto PAPAI, Instituto Promundo. Conta a história de um rapaz, João, e os desafios que ele enfrenta durante seu processo de crescimento para tornar-se homem em nossa sociedade: o machismo, a violência familiar, a homofobia, as dúvidas em relaçãà sexualidade, a gravidez da namorada e a paternidade.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Tempos Modernos, tempos de Sociologia


A Revolução Industrial provocou profundas mudanças na sociedade



A sociologia constitui um projeto intelectual tenso e contraditório. Para alguns ela representa uma poderosa arma a serviço dos interesses dominantes, para outros ela é a expressão teórica dos movimentos revolucionários.
A sua posição é notavelmente contraditória. De um lado, foi proscrita de inúmeros centros de ensino. Foi fustigada, em passado recente, nas universidades brasileiras, congelada pelos governos militares argentino, chileno e outros do gênero. Em 1968, os coronéis gregos acusavam-na de ser disfarce do marxismo e teoria da revolução. Enquanto isso, os estudantes de Paris escreviam nos muros da Sorbone que “não teríamos mais problemas quando o último sociólogo fosse estrangulado com as tripas do último burocrata”.
Como compreender as avaliações tão diferentes dirigidas com relação a esta ciência? Para esclarecer esta questão, torna-se necessário conhecer, ainda que de forma bastante geral e com algumas omissões, um pouco de sua história. Isto me leva a situar a sociologia – este conjunto de conceitos, de técnicas e de métodos de investigação produzidos para explicar a vida social – no contexto histórico que possibilitou o seu surgimento, formação e desenvolvimento.
Este livro parte do princípio de que a sociologia é o resultado de uma tentativa de compreensão de situações sociais radicalmente novas, criadas pela então nascente sociedade capitalista. A trajetória desta ciência tem sido uma constante tentativa de dialogar com a civilização capitalista, em suas diferentes fases.
Na verdade, a sociologia, desde o seu início, sempre foi algo mais do que uma mera tentativa de reflexão sobre a sociedade moderna. Suas explicações sempre contiveram intenções práticas, um forte desejo de interferir no rumo desta civilização. Se o pensamento científico sempre guarda uma correspondência com a vida social, na sociologia esta influência é particularmente marcante. Os interesses econômicos e políticos dos grupos e das classes sociais, que na sociedade capitalista apresentam-se de forma divergente, influenciam profundamente a elaboração do pensamento sociológico.
Procuro apresentar, em termos de debate, a dimensão política da sociologia, a natureza e as conseqüências de sem envolvimento nos embates entre os grupos e as classes sociais e refletir em que medida os conceitos e as teorias produzidos pelos sociólogos contribuem para manter ou alterar as relações de poder existentes na sociedade.


O SURGIMENTO

Podemos entender a sociologia como uma das manifestações do pensamento moderno. A evolução do pensamento científico, que vinha se constituindo desde Copérnico, passa a cobrir, com a sociologia, uma nova área do conhecimento ainda não incorporada ao saber científico, ou seja, o mundo social. Surge posteriormente à constituição das ciências naturais e de diversas ciências sociais.
A sua formação constitui um acontecimento complexo para o qual concorrem uma constelação de circunstâncias, históricas e intelectuais, e determinadas intenções práticas. O seu surgimento ocorre num contexto histórico específico, que coincide com os derradeiros momentos da sociedade feudal e da consolidação da civilização capitalista. A sua criação não é obra de um único filósofo ou cientista, mas representa o resultado da elaboração de um conjunto de pensadores que se empenharam em compreender as novas situações de existência que estavam em curso.
O século XVIII constitui um marco importante para a história do pensamento ocidental e para o surgimento da sociologia. As transformações econômicas, políticas e culturais que se aceleram a partir dessa época colocarão problemas inéditos para os homens que experimentavam as mudanças que ocorriam no ocidente europeu. A dupla revolução que este século testemunha – a industrial e a francesa – constituía os dois lados de um mesmo processo, qual seja, a instalação definitiva da sociedade capitalista. A palavra sociologia apareceria somente um século depois, por volta de 1830, mas são os acontecimentos desencadeados pela dupla revolução que a precipitam a tornam possível.
Não constitui objetivo desta parte do trabalho proceder a uma análise destas duas revoluções, mas apenas estabelecer algumas relações que elas possuem com a formação da sociologia. A revolução industrial significou algo mais do que a introdução da máquina a vapor e dos sucessivos aperfeiçoamentos dos métodos produtivos. Ela representou o triunfo da indústria capitalista, capitaneada pelo empresário capitalista que foi pouco a pouco concentrando as máquinas, as terras e as ferramentas sob seu controle, convertendo grandes massas humanas em simples trabalhadores desprovidos.
Cada avanço com relação à consolidação da sociedade capitalista representava a desintegração. O solapamento de costumes e instituições até então existentes e a introdução de novas formas de organizar a vida social. A utilização da máquina na produção não apenas destruiu o artesão independente, que possuía um pequeno pedaço de terra, cultivado nos seus momentos livres. Este foi também submetido a uma severa disciplina, a novas formas de conduta e de relações de trabalho, completamente diferentes das vividas anteriormente por ele.
Num período de oitenta anos, ou seja, entre 1780 e 1860, a Inglaterra havia mudado de forma marcante a sua fisionomia. País com pequenas cidades, com uma população rural dispersa, passou a comportar enormes cidades, nas quais se concentravam suas nascentes indústrias, que espalhavam produtos para o mundo inteiro. Tais modificações não poderiam deixar de produzir novas realidades para os homens dessa época. A formação de uma sociedade que se industrializava e urbanizava em ritmo crescente implicava a reordenação da sociedade rural, a destruição da servidão, o desmantelamento da família patriarcal etc. A transformação da atividade artesanal em manufatureira e, por último, em atividade fabril, desencadeou uma maciça emigração do campo para a cidade, assim como engajou mulheres e crianças em jornadas de trabalho de pelo menos doze horas, sem férias e feriados, ganhando um salário de subsistência. Em alguns setores da indústria inglesa, mais da metade dos trabalhadores era constituída por mulheres e crianças, que ganhavam salários inferiores dos homens.
A desaparição dos pequenos proprietários rurais, dos artesãos independentes, a imposição de prolongadas horas de trabalho etc, tiveram um efeito traumático sobre milhões de seres humanos ao modificar radicalmente suas formas habituais de vida. Estas transformações, que possuíam um sabor de cataclisma, faziam-se mais visíveis nas cidades industriais, local para onde convergiam todas estas modificações e explodiam suas conseqüências. Estas cidades passavam por um vertiginoso crescimento demográfico, sem possuir, no entanto, uma estrutura de moradias, de serviços sanitários, de saúde, capaz de acolher a população que se deslocava do campo. Manchester, que constitui um ponto de referência indicativo desses tempos, por volta do início do século XIX era habitada por setenta mil habitantes; cinqüenta anos depois, possuía trezentas mil pessoas. As conseqüências da rápida industrialização e urbanização levadas a cabo pelo sistema capitalista foram tão visíveis quanto trágicas: aumento assustador da prostituição, do suicídio, do alcoolismo, do infanticídio, da criminalidade, da violência, de surtos de epidemia de tifo e cólera que dizimaram parte da população etc. É evidente que a situação de miséria também atingia o campo, principalmente os trabalhadores assalariados, mas o seu epicentro ficava, sem dúvida, nas cidades industriais.
Um dos fatos de maior importância relacionados coma revolução industrial é sem dúvida o aparecimento do proletariado e o papel histórico que ele desempenharia na sociedade capitalista. Os efeitos catastróficos que esta revolução acarretava para a classe trabalhadora levaram-na a negar suas condições de vida. As manifestações de revolta dos trabalhadores atravessaram diversas fases, como a destruição das máquinas, atos de sabotagem e explosão de algumas oficinas, roubos e crimes, evoluindo para a criação de associações livres, formação de sindicatos, etc. A conseqüência desta crescente organização foi a de que os “pobres” deixaram de se conformar com os “ricos”; mas uma classe específica, e classe operária, com consciência de seus interesses, começava a organizar-se para enfrentar os proprietários dos instrumentos de trabalho. Nesta trajetória, iam produzindo seus jornais, sua própria literatura, procedendo a uma crítica da sociedade capitalista e inclinando-se para o socialismo como alternativa de mudança.


QUAL A IMPORTÂNCIA DESSES ACONTECIMENTOS PARA A SOCIOLOGIA?

O que merece ser salientado é que a profundidade das transformações em curso colocava a sociedade num plano de análise, ou seja, esta passava a se constituir em “problema”, em “objeto” que deveria ser investigado. Os pensadores ingleses que testemunhavam estas transformações e com elas se preocupavam não eram, no entanto, homens de ciência ou sociólogos que viviam desta profissão. Eram antes de tudo homens voltados para a ação, que desejavam introduzir determinadas modificações na sociedade. Participavam ativamente dos debates ideológicos em que se envolviam as correntes liberais, conservadoras e socialistas. Eles não desejavam produzir um mero conhecimento sobre as novas condições de vida geradas pela revolução industrial, mas procuravam extrair dele orientações para a ação, tanto para manter, como para reformar ou modificar radicalmente a sociedade de seu tempo. Tal fato significa que os precursores da sociologia foram recrutados entre militantes políticos, entre indivíduos que participavam e se envolviam profundamente com os problemas de suas sociedades.
Pensadores como Owen (1771-1858), William Thompson (1775-1833), Jeremy Bentham (1748-1832), só para citar alguns daquele momento histórico, podiam discordar entre si ao julgarem as novas condições de vida provocadas pela revolução industrial e as modificações que deveriam ser realizadas na nascente sociedade industrial, mas todos eles concordavam que ela produzira fenômenos inteiramente novos que mereciam ser analisados. O que eles refletiram foi de fundamental importância para a formação e constituição de um saber sobre a sociedade.
A sociologia constitui em certa medida uma resposta intelectual às novas situações colocadas pela revolução industrial. Boa parte de seus temas de análise e de reflexão foi retirada das novas situações, como por exemplo, a situação da classe trabalhadora, o surgimento da cidade industrial, as transformações tecnológicas, a organização do trabalho na fábrica etc. É a formação de uma estrutura social muito específica – a sociedade capitalista – que impulsiona uma reflexão sobre a sociedade, sobre suas transformações, suas crises, seus antagonismos de classe. Não é por acaso que a sociologia, enquanto instrumento de análise, inexistia nas relativamente estáveis sociedades pré-capitalistas, uma vez que o ritmo e o nível das mudanças que aí se verificavam não chegavam a colocar a sociedade como “um problema” a ser investigado.
O surgimento da sociologia, como se pode perceber, prende-se em parte aos abalos provocados pela revolução industrial, pelas novas condições de existência por ela criadas. Mas uma outra circunstância concorreria também para a sua formação. Trata-se das modificações que vinham ocorrendo nas formas de pensamento. As transformações econômicas, que se achavam em curso no ocidente europeu desde o século XVI, não poderiam deixar de provocar modificações na forma de conhecer a natureza e a cultura.
A partir daquele momento, o pensamento paulatinamente vai renunciando a uma visão sobrenatural para explicar os fatos e substituindo-a por uma indagação racional. A aplicação da observação e da experimentação, ou seja, do método científico para a explicação da natureza, conhecia uma nova fase de grandes progressos. Num espaço de cento e cinqüenta anos, ou seja, de Copérnico a Newton, a ciência passou por um notável progresso, mudando até mesmo a localização do planeta Terra no cosmo.
O emprego sistemático da observação e da experimentação como fonte para a exploração dos fenômenos da natureza estava possibilitando uma grande acumulação de fatos. O estabelecimento de relações entre os fatos ia possibilitando aos homens dessa época um conhecimento da natureza que lhes abria possibilidade de a controlar e dominar.
O pensamento filosófico do século XVII contribuiu para popularizar os avanços do pensamento científico. Para Francis Bacon (1561-1626), por exemplo, a teologia deixaria de ter a forma norteadora do pensamento. A autoridade, que exatamente constituía um dos alicerces da teologia, deveria, em sua opinião, ceder lugar a uma dúvida metódica, a fim de possibilitar um conhecimento objetivo da realidade. Para ele, o novo método de conhecimento, baseado na observação e na experimentação, ampliaria infinitamente o poder do homem e deveria ser estendido e aplicado ao estudo da sociedade. Partindo destas idéias, chegou a propor um programa para acumular os dados disponíveis e com eles realizar experimentos a fim de descobrir e formular leis gerais sobre a sociedade.
O emprego sistemático da razão, do livre exame da realidade – traço que caracterizava os pensadores do século XVII, os chamados racionalistas –, representou um grande avanço para libertar o conhecimento do controle teológico, da tradição, da “revelação” e, consequentemente, para a formulação de uma nova atitude intelectual diante dos fenômenos da natureza e da cultura.
Diga-se de passagem que o progressivo abandono da autoridade, do dogmatismo e de uma concepção providencialista, enquanto atitudes intelectuais para analisar a realidade, não constituía um acontecimento circunscrito apenas ao campo científico ou filosófico. A literatura do século XVII, por exemplo, constituía uma outra área que ia se afastando do pensamento oficial, na medida em que se rebelava contra a criação literária legitimada pelo poder. A obra de vários literatos dessa época investia contra as instituições oficiais, procurando desmascarar os fundamentos do poder político, contribuindo assim para a renovação dos costumes e hábitos mentais dos homens da época.
Se no século XVIII os dados estatísticos voavam, indicando uma produtividade antes desconhecida, o pensamento social deste período também realizava seus vôos rumo a novas descobertas. A pressuposição de que o processo histórico possui uma lógica passível de ser apreendida constituiu um acontecimento que abria novas pistas para a investigação racional da sociedade.
Data também dessa época a disposição de tratar a sociedade a partir do estudo de seus grupos e não dos indivíduos isolados. Essa orientação estava, por exemplo, nos trabalhos de Ferguson, que acrescentava que para o estudo da sociedade era necessário evitar conjecturas e especulações. A obra deste historiador escocês revela a influência de algumas idéias de Bacon, como a de que é a indução, e não a dedução, que nos revela a natureza do mundo, e a importância da observação enquanto instrumento para a obtenção do conhecimento.
No entanto, é entre os pensadores franceses do século XVIII que encontramos um grupo de filósofos que procurava transformar não apenas as velhas formas de conhecimento, baseadas na tradição e na autoridade, mas a própria sociedade. Os iluministas, enquanto ideólogos da burguesia, que nesta época posicionavam-se de forma revolucionária, atacaram com veemência os fundamentos da sociedade feudal, os privilégios de sua classe dominantes e as restrições que esta impunha aos interesses econômicos e políticos burgueses.
É a intensidade do conflito entre as classes dominantes da sociedade feudal e a burguesia revolucionária que leva os filósofos, seus representantes intelectuais, a atacarem de forma impiedosa a sociedade feudal e a sua estrutura de conhecimento, e a negarem abertamente a sociedade existente.
Para proceder a uma indagação crítica da sociedade da época, os iluministas partiram dos seus antecessores do século XVII, como Descartes, Bacon, Hobbes e outros, reelaborando, porém, algumas de suas idéias e procedimentos. Ao invés de utilizar a dedução, como a maioria dos pensadores do século XVII, os iluministas insistiam numa explicação da realidade baseada no modelo das ciências da natureza. Nesse sentido, eram influenciados mais por Newton, com seu modelo de conhecimento baseado na observação, na experimentação e na acumulação de dados, do que por Descartes com seu método da investigação baseado na dedução.
Combinando o uso da razão e da observação, os iluministas analisaram quase todos os aspectos da sociedade. Os trabalhos de Montesquieu (1689-1755), por exemplo, estabelecem uma série de observações sobre a população, o comércio, a religião, a moral, a família etc. O objetivo dos iluministas, ao estudar as instituições de sua época, era demonstrar que elas eram irracionais e injustas, que atentavam contra a natureza dos indivíduos e, nesse sentido, impediam a liberdade do homem. Concebiam o indivíduo como dotado de razão, possuído uma perfeição inata e destinado à liberdade do indivíduo e à sua plena realização, elas, segundo eles, deveriam ser eliminadas. Dessa forma reivindicavam a liberação do indivíduo de todos os laços sociais tradicionais, tal como as corporações, a autoridade feudal, etc.
A burguesia, ao tomar o poder em 1789, investiu decididamente contra os fundamentos da sociedade feudal, procurando construir um Estado que assegurasse sua autonomia em face da Igreja e que protegesse e incentivasse a empresa capitalista. Para a destruição do “ancien regime”, foram mobilizadas as massas, especialmente os trabalhadores pobres das cidades. Alguns meses mais tarde, elas foram “presenteadas” pela nova classe dominante com a interdição dos seus sindicatos.
A investida da burguesia rumo ao poder, sucedeu-se uma liquidação sistemática do velho regime. A revolução ainda não completara um ano de existência, mas fora suficientemente intempestiva para liquidar a velha estrutura feudal e o Estado monárquico.
O fato é que pensadores franceses da época, como Saint-Simon, Comte, Lê Play e alguns outros, concentrarão suas reflexões sobre a natureza e as conseqüências da revolução. Em seus trabalhos, utilizarão expressões como “anarquia”, “pertubação”, “crise”, “desordem”, para julgar a nova realidade provocada pela revolução.


BIBLIOGRAFIA

MARTINS, C. B. O que é Sociologia. 10ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1985.

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